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A Conferência Internacional de Inteligência Artificial (CIIA) arrancou esta quinta-feira (4), em Luanda, com um apelo à afirmação africana no ecossistema digital global. Na sua intervenção, o CEO da New Tech Angola, empresa organizadora do evento, defendeu que o país e o continente devem construir o futuro com base em princípios próprios, alianças equilibradas e investimento estratégico em talento e infra-estruturas.
Dirigindo-se aos presentes, Euclides Agapito afirmou que a transformação digital “não é um privilégio de Silicon Valley”, mas um processo que pode ser impulsionado a partir de Angola com “visão, coragem e trabalho”. Segundo afirmou, o evento que prossegue hoje, dia 5, com sessões de workshops, visa demonstrar que o país e o continente “não precisam de importar inovação”, pois têm condições para a criar e participar activamente na definição dos padrões globais de desenvolvimento tecnológico.
A este respeito, o responsável destacou o potencial demográfico africano, que classificou como a população jovem mais dinâmica do planeta, e recordou que muitos dos recursos minerais que hoje sustentam a indústria tecnológica mundial são extraídos do continente.
“Esta conferência não é sobre Angola aprender a usar ferramentas de IA, é sobre África co-criar os padrões globais, é sobre definirmos regras de um ecossistema global que nos serve e não apenas nos explora. Sem África não há revolução digital. É tempo de transformarmos esta dependência em poder”, afirmou.
A intervenção marcou também uma posição sobre soberania digital que, segundo o responsável, deve ser entendida como a capacidade de auto-determinação do continente nas políticas de dados, infra-estruturas e economia digital. O objectivo, sublinhou, não é o isolamento, mas a criação de normas que reflitam “os contextos, valores e prioridades africanas”.
“Soberania digital não é isolamento, é auto-determinação. É garantir que os dados dos nossos cidadãos, as infra-estruturas dos nossos países e as regras das nossas economias digitais sejam criadas para nós”, frisou, adiantando que as discussões sobre ética e governação da IA devem partir de referências locais, ao invés de apenas replicar modelos de outros continentes.
Euclides Agapito defende, contudo, a importância de parcerias internacionais, desde que baseadas em termos equitativos, assegurando transferência de conhecimento e construção de capacidades internas.
“Queremos estas parcerias, mas em termos equitativos. Queremos parcerias que reflitam e transfiram conhecimento, não que apenas extraiam valores. Queremos parcerias que construam capacidades locais, não dependências permanentes”, afirmou, dirigindo-se aos representantes estrangeiros presentes no encontro.
Voltando-se às instituições governamentais, apelou ao investimento em talento nacional e em infra-estruturas digitais. Aos jovens inovadores, pediu ambição e protagonismo, lembrando que “o futuro que construírem será vosso”. Essa visão, observou, assenta na intenção de reposicionar a diplomacia digital do país e do continente.
“Quando, daqui a 20 anos, se escrever a história da revolução da IA, queremos que se escreva que África não foi espectadora, mas protagonista”, afirmou, acrescendo que a construção desse futuro “começa aqui, começa hoje, começa connosco”, assinalando a edição de 2025 da CIIA como o ponto de partida de um ciclo anual de debates, inovação e cooperação em torno da IA no continente.
Para hoje, o evento inclui workshops exclusivos para as empresas inscritas, com sessões de formação, demonstrações e debates sobre inteligência artificial, inovação digital e transformação tecnológica. Segundo a organização, o programa foi concebido para oferecer uma experiência prática e interactiva, privilegiando o networking e a partilha de conhecimento especializado.


