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A confiança digital em Angola: como a ICP-Angola vai mudar o dia-a-dia dos cidadãos e das empresas

A confiança digital em Angola: como a ICP-Angola vai mudar o dia-a-dia dos cidadãos e das empresas
Por: André Mpumba Pedro, director geral do INFOSI

Quando se fala de Infra-estrutura de Chaves Públicas, ou ICP, é natural que muitas pessoas pensem em computadores, criptografia e sistemas difíceis de compreender. Mas, na verdade, a sua utilidade é muito simples: permitir que Angola tenha uma base nacional de confiança para que cidadãos, empresas e instituições possam assinar documentos, provar identidades, validar transacções e confirmar actos digitais com segurança.

No mundo físico, estamos habituados a confiar num carimbo, numa assinatura reconhecida, numa autenticação presencial, num livro de registo ou numa certidão emitida por uma entidade pública. No mundo digital, esses mecanismos são realizados remotamente pela internet, e entre o emissor e o destinatário de uma transacção podem haver intermediários invisíveis: precisamos de uma equivalência segura.

A ICP-Angola tem a tutela do Instituto nacional de Fomento da Sociedade de Informação (‘INFOSI’) e vem precisamente criar essa equivalência: uma infra-estrutura nacional única que permite provar, de forma electrónica, quem praticou determinado acto, quando o fez e se o documento ou registo foi alterado.

Antes e depois: o que muda na vida real

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Hoje, muitos processos ainda exigem deslocações, cópias autenticadas, assinaturas presenciais, filas, reconhecimento de documentos e circulação física de papéis. Um cidadão que precise de assinar uma procuração, um empresário que tenha de submeter documentos a um banco, ou uma empresa que participe num concurso público, muitas vezes ainda depende de procedimentos manuais e demorados.

Quando nos registamos num portal na internet por exemplo, se alguém adivinhar ou roubar a palavra-passe, pode fingir que somos nós. Isto acontece muito porque as palavras-passe são fáceis de partilhar, reutilizar ou fazer ‘phishing’.

Com a ICP-Angola, o cenário vai mudar. Um contrato poderá ser assinado à distância, com validade e segurança. As nossas credenciais serão verificadas sem hipótese de uso indevido. Uma proposta submetida por uma empresa poderá ter prova clara da hora exacta em que foi entregue. Um certificado académico poderá ser emitido digitalmente e verificado por uma entidade empregadora. Um documento bancário poderá ser aceite sem que o cliente tenha de ir fisicamente a uma agência. Um acto notarial poderá deixar de depender exclusivamente da presença física, desde que o serviço esteja devidamente preparado para operar neste novo ecossistema de confiança.

A diferença é simples: antes, o cidadão precisava provar presencialmente a sua identidade e transportar documentos em papel; depois, passou a fazer um registo online com senha mas essa senha podia ser usada indevidamente, agora pode interagir com instituições públicas e privadas através de canais digitais totalmente seguros, com menos deslocações, menos incerteza e maior rapidez.

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Identidade electrónica: provar quem somos no mundo digital

Um dos conceitos fundamentais deste novo ecossistema é a identidade electrónica, ou eID. Na prática, trata-se da capacidade de uma pessoa provar digitalmente que é quem diz ser. Tal como hoje se apresenta um bilhete de identidade que é um documento físico, no ambiente digital deve existir uma forma segura de autenticação electrónica remota.

É aqui que a biometria ganha importância. A captura biométrica — por exemplo, fotografia facial, impressões digitais, leitura da íris ou outros elementos de identificação — permitem associar uma identidade digital a uma pessoa real. Isto é essencial para evitar fraude, impedir que alguém se faça passar por outra pessoa e garantir que os certificados digitais são emitidos a titulares correctamente identificados.

A biometria não substitui a confiança institucional; reforça-a. Ela ajuda a garantir que a assinatura digital de um cidadão, de um profissional, de um funcionário público ou de um representante de empresa pertence efectivamente à pessoa certa. Num país que pretende acelerar serviços públicos digitais, banca remota, saúde digital, educação digital e interacção segura com empresas, a identidade electrónica será uma peça central da modernização.

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Em Angola acaba de ser lançado o passaporte electrónico pelo Ministério do Interior que é a única credencial de identificação electrónica nacional que tem associada uma chave electrónica única, verificável em qualquer parte do mundo. Esta operação é possivel depois de uma captura biométrica de cada cidadão e da geração de uma chave digital unica para cada passaporte. Este processo foi homologado pela ICAO international e pela ICP-Angola.

O Carimbo do Tempo: provar quando algo aconteceu

Outro conceito essencial que está a ser lançado é o Carimbo do Tempo. A assinatura digital ajuda a provar quem assinou. O Carimbo do Tempo ajuda a provar quando assinou.

Isto é mais importante do que parece. Imagine uma empresa que submete uma proposta num concurso público às 15h59, quando o prazo terminava às 16h00. Ou um cidadão que assina digitalmente um contrato antes de uma determinada data-limite. Ou um tribunal que recebe uma peça processual electrónica dentro do prazo. Sem uma referência oficial de tempo, podem surgir dúvidas: o relógio do computador estava correcto? O servidor estava sincronizado? O documento foi alterado depois? O registo interno é suficiente?

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O Carimbo do Tempo resolve essa fragilidade ao associar uma data e hora confiáveis a um documento, assinatura, transacção ou registo electrónico. Não serve para dizer se o conteúdo é verdadeiro ou falso; serve para provar que aquele conteúdo existia naquele exacto momento e que qualquer alteração posterior seria detectável.

No dia-a-dia, isto beneficia contratos, facturas electrónicas, processos judiciais, actos notariais, propostas de contratação pública, registos académicos, prescrições médicas digitais e arquivos públicos. Em termos simples: reduz dúvidas, reduz litígios e aumenta confiança.

Bancos, notários, Estado e empresas: os primeiros sectores a ganhar

A ICP-Angola não é uma infra-estrutura que vive apenas dentro de um centro de dados. O seu valor aparece quando passa a ser usada por entidades reais, em serviços reais.

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No sector bancário, pode permitir contratos de crédito assinados remotamente, abertura de contas com autenticação forte, validação segura de documentos e redução de fraude documental. Para o cliente, significa menos deslocações e processos mais rápidos. Para o banco, significa mais segurança, melhor rastreabilidade e novos canais digitais.

No notariado e nos registos, pode permitir actos mais céleres, melhor conservação documental e maior confiança na assinatura electrónica. Para advogados, solicitadores, empresas e cidadãos, isto pode representar menos burocracia e maior previsibilidade.

No sector público, o impacto é ainda maior. O Estado é o maior produtor e receptor de actos formais: recebe pedidos, emite documentos, cobra impostos, autoriza direitos, fiscaliza actividades, adjudica contratos e conserva arquivos. Por isso, qualquer melhoria na prova digital dos actos administrativos tem impacto directo na eficiência, na transparência e na qualidade do serviço público.

Uma estrutura nacional para fazer crescer um mercado

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A ICP-Angola será organizada como um ecossistema. No topo está o INFOSI, sob tutela do MINTTICS, enquanto entidade responsável pela infra-estrutura raiz e pela garantia técnica da confiança nacional. Esta raiz é a base a partir da qual outras Autoridades Certificadoras poderão operar em sectores específicos conforme as necessidades reais de cada sector, como banca, notariado, administração pública, saúde, ensino superior ou ordens profissionais.

O modelo será construído de forma gradual e sustentável. A infra-estrutura técnica raiz está a ser instalada na recentemente inaugurada Cloud do Governo no Camama, na região de Luanda, criando uma base soberana, segura e controlada em território nacional. Em paralelo, estão a ser identificadas e seleccionadas as primeiras Autoridades Certificadoras para sectores prioritários que precisam urgentemente de soluções qualificadas de confiança digital.

Em alguns casos, o próprio INFOSI poderá exercer a sua atribuição de fomento à socieade de informação lançando e operando temporariamente determinadas Autoridades Certificadoras para acelerar a disponibilização dos serviços ao mercado, até que os processos administrativos de concessão estejam formalmente tramitados. O objectivo não é concentrar indefinidamente a actividade, mas garantir que o país não perde tempo a criar uma infra-estrutura que depois demora a chegar aos cidadãos e empresas.

Este modelo tem um antecedente de sucesso recente na experiência do domínio angolano .AO. O INFOSI começou por estruturar o ecossistema nacional de nomes de domínio, instalou as primeiras capacidades nacionais, apoiou a criação de revendedores e, quando o mercado amadureceu, permitiu que a actividade evoluísse para um ambiente aberto e competitivo em que o INFOSI não concorre.

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A ambição para a ICP é semelhante: começar com segurança, criar tração, formar mercado, apoiar os primeiros operadores e, progressivamente, permitir que entidades qualificadas assumam papéis próprios num ecossistema de confiança digital mais amplo.

O INFOSI manterá sempre as suas funções de supervisão, garantia técnica e protecção do interesse público servindo de catalisador dos grandes projectos tecnológicos estruturantes de Angola.

Uma nova indústria de confiança digital

A ICP-Angola não cria apenas segurança; cria uma nova economia. À sua volta poderão surgir serviços de assinatura digital, portais de assinatura, carimbo do tempo, autenticação forte, identidade electrónica, validação de certificados, integração com sistemas bancários, serviços para empresas, soluções para cartórios, plataformas para universidades e serviços digitais para ordens profissionais.

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Isto significa novas oportunidades para empresas tecnológicas angolanas, novos serviços para instituições tradicionais, novas receitas para sustentar a expansão da infra-estrutura e milhares de novos empregos qualificados. Significa também que Angola pode entrar nesta nova fase não apenas como utilizador tardio de tecnologia, mas como país que instala uma base moderna, alinhada com boas práticas internacionais e preparada para crescer de forma organizada.

O benefício final: menos papel, menos dúvida, mais confiança

Para o cidadão comum, o impacto da ICP-Angola será sentido quando assinar um documento sem sair de casa, quando submeter um pedido público sem imprimir cópias, quando validar um certificado sem depender de deslocações, ou quando conseguir provar que cumpriu um prazo electrónico.

Para as empresas, será sentido na redução de custos, no aumento da rapidez contratual, na segurança das transacções e na possibilidade de operar mais processos à distância.

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Para o Estado, será sentido na modernização administrativa, no combate à fraude, na rastreabilidade dos actos públicos e na criação de serviços mais próximos, mais rápidos e mais confiáveis.

A confiança digital não se vê como se vê uma estrada ou um edifício. Mas, quando existe, tudo funciona melhor. A ICP-Angola é essa base silenciosa que permitirá ao país dar mais um passo para uma administração pública moderna, uma economia digital mais forte e uma sociedade civil com mais segurança nas suas relações electrónicas.

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