Por Sebastião Jorge – professor e especialista em TIC
O Dia Internacional da Criança na Mídia é celebrado anualmente no primeiro Domingo de Março, uma data que visa colocar os mais novos no centro do debate público e da produção de conteúdos. Embora tenha sido criado pelo UNICEF originalmente com foco na rádio e na televisão (os meios dominantes em 1991), o Dia Internacional da Criança na Mídia abrange, hoje, de forma inequívoca, as mídias digitais.
Assim sendo, neste Dia, é impossível não olhar com simpatia para a forma como as tecnologias de informação facilitam a vida dos nossos pequenos tanto no quesito criação de conteúdos, quanto no consumo dos mesmos. Como professor e entusiasta das TIC, reconheço que a democratização do acesso ao conhecimento em Angola permitiu que os nossos filhos tivessem o mundo na palma da mão. Há uma beleza inegável na curiosidade de uma criança que descobre o funcionamento do universo através de um vídeo educativo ou que mantém laços com a família distante por meio de uma chamada de vídeo. A tecnologia, a princípio, apresenta-se como uma aliada do desenvolvimento cognitivo e da inclusão digital.
Todavia, ao despir a bata de professor e ao assumir o papel de encarregado de educação, o meu olhar torna-se mais cauteloso e, confesso, apreensivo. A exposição excessiva dos menores na Internet deixou de ser uma janela para o saber e tornou-se, em muitos casos, uma montra perigosa onde a intimidade é a moeda de troca.
Entende-se por algoritmo como sendo um conjunto de instruções matemáticas que analisa o comportamento do utilizador (o que ele clica, quanto tempo gasta a ver uma imagem ou o que escreve) para decidir o que lhe mostrar a seguir. O seu objectivo principal é manter a pessoa “presa” ao ecrã o maior tempo possível, oferecendo-lhe apenas aquilo de que ela já gosta. Imagine que o seu filho entra numa biblioteca gigante. O algoritmo é aquele funcionário que fica escondido a observar: se a criança pega num livro sobre futebol, o bibliotecário corre e coloca mais dez livros de futebol à frente dela; se ela ri com um vídeo de gatinhos, ele esconde os livros de história e só lhe traz vídeos de animais.
Estamos a assistir a uma geração que não vive o momento sem antes o mediar por uma lente, expondo rotinas, uniformes escolares e localizações que, nas mãos de indivíduos mal-intencionados, constituem um mapa detalhado para o perigo. O que parece um “post” inocente é, muitas vezes, uma violação da privacidade que a criança ainda não tem maturidade para defender.Há um perigo que não se deve ignorar nas trocas sociais da linguagem verbal e não verbal, isto é, cada fotografia publicada, cada perfil aberto em redes sociais de vídeo curto, alimenta algoritmos que não têm ética nem moral; o seu único objectivo é manter o menor viciado no ecrã.
O excesso de exposição não fere apenas a segurança física, mas corrói a saúde mental. Estamos a criar crianças dependentes da aprovação externa, de “likes” e de filtros que distorcem a realidade, retirando-lhes a capacidade de lidar com o tédio e com as frustrações do mundo real, o mundo que não se resolve com um deslizar de dedo.
É imperativo questionarmos: quem está, de facto, a educar os nossos filhos quando eles passam horas isolados num quarto com um telemóvel? Em Angola, onde a literacia digital ainda caminha a passos lentos, o risco de exposição a conteúdos impróprios, ao “cyberbullying” e a aliciadores é altíssimo. A internet é um oceano sem nadadores-salvadores profissionais; se não formos nós, os pais, a estabelecer limites claros e a monitorizar activamente o que consomem, estaremos a entregá-los a uma selva digital sem bússola. A facilidade tecnológica não pode substituir o diálogo directo nem a supervisão presencial.
O quotidiano dos usuários das TIC permite aferir que a criança com capacidade técnica incrível, mas com uma carência de atenção e foco gritante, fruto de cérebros habituados ao estímulo constante e superficial das mídias sociais. A exposição excessiva rouba o tempo da brincadeira ao ar livre, do contacto com o solo e da leitura de um livro físico. Como especialistas, sabemos que a tecnologia deve ser um meio, nunca o fim. Se permitirmos que os mídias ocupem o lugar central na vida da criança, estaremos a formar adultos tecnicamente ágeis, mas emocionalmente frágeis e socialmente desajustados. Devemos reflectir profundamente sobre o impacto real dos ecrãs no desenvolvimento dos nossos filhos, recordando o alerta incisivo de Michel Desmurget em “A Fábrica de Cretinos”, em que o autor demonstra que “o que estamos a fazer aos nossos filhos é um autêntico massacre cognitivo” (Desmurget, 2019), pois o consumo digital excessivo rouba-lhes o tempo precioso de sono, interacção social e leitura.
Que os pais aproveitem esta data para pesquisar sobre o modo de utilização de recursos como o “Google Family Link”, o “Tempo de Ecrã da Apple” ou a “Gestão do Wi-Fi” não como meros instrumentos de castigo, mas como aliados pedagógicos que garantem que o lazer digital — seja através de jogos ou de vídeos no YouTube Kids — apenas ocorra após o cumprimento dos deveres e no respeito pelas horas de descanso, ensinando aos nossos pequenos que a verdadeira liberdade digital nasce da responsabilidade e do uso consciente das ferramentas que têm em mãos.
Portanto, neste dia de reflexão, os encarregados de educação devem apostar para o equilíbrio. Não precisamos de banir a tecnologia — seria uma luta inglória e anacrónica — mas precisamos de exercer uma paternidade e uma docência presentes. Educar para o digital significa ensinar a criança a desligar, a proteger a sua imagem e a entender que nem tudo o que brilha no ecrã é ouro. Sejamos nós o filtro que protege a pureza da infância contra o apetite voraz da exposição mediática. O melhor “feed” que um filho pode ter é o olhar atento e protector dos seus pais.




