A adopção de pagamentos digitais pode reduzir significativamente as dificuldades de acesso ao crédito enfrentadas pelas empresas, sobretudo em economias menos desenvolvidas e com elevada informalidade, conclui um estudo do Banco Mundial que analisou mais de 48 mil empresas em 101 países.
Os resultados sugerem que mercados como Angola poderão beneficiar particularmente da expansão dos meios electrónicos de pagamento, não apenas pela modernização das transacções financeiras, mas também pela criação de condições mais favoráveis para o financiamento empresarial.
O estudo, publicado na série Policy Research Working Paper, analisou dados de 48.581 empresas dos sectores formais não agrícolas e procurou compreender de que forma a utilização de pagamentos electrónicos influencia as restrições de acesso ao crédito.
Os investigadores concluíram que as empresas que recebem pagamentos por meios electrónicos apresentam menor probabilidade de enfrentar exclusão financeira. Em média, a probabilidade de uma empresa estar totalmente excluída do acesso ao crédito diminui 3,3% quando passa a receber pagamentos digitais.
Segundo os autores, o principal factor por trás deste fenómeno é a redução das chamadas assimetrias de informação entre empresas e instituições financeiras. Em muitos mercados, especialmente nos países em desenvolvimento, os bancos enfrentam dificuldades para avaliar a capacidade financeira real das empresas, em particular das pequenas e médias empresas.
Ao receber pagamentos electrónicos, as empresas passam a gerar registos digitais verificáveis das suas vendas e fluxos financeiros. Essa informação permite aos bancos obter uma visão mais clara sobre receitas, actividade económica e capacidade de pagamento, reduzindo a incerteza associada à concessão de crédito.
“Os pagamentos electrónicos fornecem uma fonte alternativa de informação para os credores”, defendem os autores, argumentando que os dados transaccionais ajudam as instituições financeiras a avaliar a solvabilidade dos potenciais clientes para além dos mecanismos tradicionais de análise.
Benefícios mais fortes nos países menos desenvolvidos
Uma das conclusões mais relevantes do estudo é que os efeitos positivos da digitalização dos pagamentos não se distribuem uniformemente entre as economias analisadas. Os maiores benefícios foram observados nos países de baixo rendimento, onde a redução das restrições de crédito associada aos pagamentos electrónicos é quase três vezes superior à registada nas economias de rendimento elevado.
O mesmo padrão foi identificado em países com sistemas financeiros menos desenvolvidos e infra-estruturas de informação de crédito mais frágeis. Nesses contextos, os registos gerados pelos pagamentos digitais assumem maior importância porque complementam ou substituem mecanismos tradicionais de avaliação financeira que muitas vezes apresentam cobertura limitada.
Os investigadores verificaram também que a adopção de pagamentos electrónicos produz efeitos mais expressivos em economias caracterizadas por elevados níveis de informalidade.
Segundo o estudo, em ambientes onde uma parte significativa da actividade económica ocorre fora dos circuitos formais, os dados produzidos pelas transacções digitais tornam-se particularmente valiosos para os bancos, permitindo uma avaliação mais rigorosa das empresas e reduzindo o risco associado à concessão de crédito.
Pequenas empresas são as maiores beneficiárias
A análise mostra ainda que o impacto da digitalização financeira é especialmente relevante para as pequenas empresas, empresas jovens, organizações menos produtivas e negócios sem demonstrações financeiras auditadas.
Estes grupos tendem a enfrentar maiores dificuldades na obtenção de financiamento devido à escassez de informação disponível sobre a sua actividade. Ao criar um histórico digital de transacções, os pagamentos electrónicos ajudam a compensar essa limitação e aumentam a visibilidade das empresas perante o sistema financeiro.
Os autores observam que as pequenas empresas registam ganhos superiores aos das grandes organizações, reforçando a ideia de que os pagamentos digitais funcionam como um instrumento de construção de reputação financeira.
A investigação conclui, por outro lado, que o efeito está mais associado aos pagamentos recebidos dos clientes do que aos pagamentos efectuados a fornecedores. Para os bancos, por exemplo, os registos de receitas constituem um indicador mais relevante da capacidade de geração de caixa e, consequentemente, da capacidade de reembolso dos empréstimos.
Implicações para Angola
Embora o estudo não apresente resultados específicos para Angola, o país integrou a amostra analisada e enquadra-se precisamente no grupo de economias onde os benefícios identificados tendem a ser mais significativos.
Angola é classificada pelo Banco Mundial como uma economia de rendimento médio-baixo e continua a enfrentar desafios relacionados com a inclusão financeira, o acesso ao crédito pelas pequenas e médias empresas e o peso da economia informal.
Neste contexto, a crescente adopção de pagamentos digitais, impulsionada pela expansão das transferências electrónicas, aplicações financeiras e soluções de carteira móvel, poderá contribuir para aumentar a transparência das operações empresariais e facilitar a avaliação de risco por parte das instituições financeiras.
O estudo sugere que a digitalização dos pagamentos não reduz necessariamente o risco intrínseco das empresas, mas permite aos credores distinguir com maior precisão entre negócios viáveis e empresas com maiores fragilidades financeiras.
Para os autores, esta melhoria na qualidade da informação pode contribuir para uma alocação mais eficiente do crédito, favorecendo empresas produtivas que anteriormente poderiam enfrentar dificuldades de financiamento por falta de histórico financeiro verificável.
Inclusão financeira além dos consumidores
As conclusões surgem num momento em que vários países africanos apostam na digitalização dos serviços financeiros como instrumento de inclusão económica.
De modo geral, o debate sobre inclusão financeira tem-se concentrado no acesso dos cidadãos aos serviços bancários. Contudo, o estudo do Banco Mundial sugere que os benefícios podem estender-se igualmente ao sector empresarial.
Ao criar registos digitais fiáveis e facilmente verificáveis, os pagamentos electrónicos podem tornar-se uma ferramenta importante para aproximar milhares de pequenas empresas do sistema financeiro formal, facilitando o acesso ao crédito e criando condições para o crescimento da actividade económica.
Os autores defendem, por isso, que a promoção dos pagamentos digitais deve ser integrada em estratégias mais amplas de inclusão financeira, desenvolvimento do sector financeiro e fortalecimento do sector privado, especialmente nas economias em desenvolvimento.



