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Por: João Rodrigues - ITIL 4 Master e embaixador da Peoplecert para o ITIL
Nunca pensei que a tecnologia fosse dar origem a uma espécie de nova classe social. De um lado, os que pagam: aqueles que têm subscrições de várias IAs, acesso aos planos premium, às respostas em segundos, aos modelos mais avançados. E essa vantagem não é apenas conforto para eles e para as suas organizações, é de facto uma vantagem competitiva real.
Quem paga, produz mais depressa, com mais qualidade, e chega primeiro. Do outro lado, os que não pagam: os que se “desenrascam” como podem, com as versões gratuitas, sempre a recarregarem as páginas, a fugirem aos limites diários e a contornar os bloqueios de pagamento através de VPNs ou “esquemas” alternativos.
No fim do dia, o que muda? À primeira vista, pouco. Duas pessoas, a mesma tarefa. Uma com todas as maravilhas da inteligência artificial à disposição; a outra com a versão gratuita e muita paciência. E onde está a diferença afinal? Está na velocidade, na qualidade e, sobretudo, no tempo.
E o tempo, hoje, é a moeda mais cara que existe. Quem tem a ferramenta certa ganha horas; quem não tem, perde-as a contornar limites.
Em Angola, este tema ganha outro peso. Mais de metade da população continua simplesmente fora da internet: segundo o relatório Digital 2026, da DataReportal, o país terminou 2025 com 17,6 milhões de utilizadores de internet, cerca de 44,8% da população, o que significa que mais de 55% dos angolanos continuam sem acesso à rede. Ou seja, antes mesmo de chegarmos à discussão dos que pagam e dos que não pagam IA, há uma camada anterior, a dos que ainda nem entraram nesta corrida. E quando uma subscrição de IA custa à volta de 18 a 19 mil kwanzas por mês (depende da IA e de muitos outros factores), percebe-se que, para muitas famílias, o “premium” deixa de ser uma escolha e passa a ser um privilégio.
E é aqui que está, na minha opinião, a armadilha: corremos o risco de criar uma desigualdade dentro da desigualdade. Não basta ter internet. Agora também é preciso ter a internet rápida, que não falhe, as ferramentas certas, as subscrições que fazem o trabalho render mais. Quem não tem, não fica só de fora, fica para trás.
Ainda assim há uma coisa que nenhuma subscrição vende: o talento, a criatividade. A IA paga acelera quem já sabe pensar; não substitui quem não sabe. A ferramenta mais cara do mundo, em mãos erradas, continua a produzir trabalho medíocre, e o jovem criativo e persistente, mesmo sem pagar nada, muitas vezes entrega mais do que aquele que tem “tudo” digitalmente. O talento continua a não ser subscritível.
A pergunta que fica é: aos olhos do mundo digital, quem não paga está automaticamente mais pobre? Ou estaremos apenas a confundir acesso com capacidade, e ferramenta com mérito?
Fica a reflexão para o dia.



