Por: António Páscoa - CEO da Isenta Comunicação
O smartphone pode estar a tornar-se uma das mais importantes ferramentas de mobilidade social da história de África.
“No limite, a Internet custará zero. Será um direito humano.”
A afirmação de Francisco Pinto Leite, PCE da Mercury, a nova identidade da MSTelcom, não deve ser lida como a previsão de uma Internet sem custos. Quem trabalha no sector sabe que não há conectividade gratuita. Existem cabos submarinos, redes de fibra óptica, antenas, satélites, centros de dados, energia, manutenção, licenças, investimento e risco. Alguém paga sempre a conta.
O mais interessante na frase talvez seja outro aspecto: a mudança de categoria. Ao sugerir que a Internet poderá tornar-se um direito humano, Francisco Pinto Leite aponta para uma discussão que vai muito além das telecomunicações. A conectividade está a deixar de ser apenas um produto comercial e começa a aproximar-se da condição de infra-estrutura essencial de desenvolvimento.
Durante décadas, os países mediram o seu progresso através do acesso à educação, à electricidade, à água potável, às estradas, aos serviços de saúde e ao sistema bancário. Hoje, um novo indicador começa a emergir silenciosamente: a capacidade de estar ligado.
Em muitas regiões de África, possuir um smartphone já significa muito mais do que possuir um telefone. O smartphone tornou-se, para milhões de africanos, a primeira agência bancária, o primeiro escritório, a primeira biblioteca, o primeiro balcão do Estado e, para muitos, o único jornal. É através daquele pequeno ecrã que milhões de pessoas recebem pagamentos, estudam, procuram emprego, aprendem uma profissão, desenvolvem competências, consultam preços agrícolas, seguem acontecimentos internacionais e formam opinião sobre o mundo.
Em vastas regiões do continente, o telemóvel não complementou infra-estruturas existentes; substituiu-as. O continente que durante décadas enfrentou escassez de bibliotecas, agências bancárias, balcões públicos, distribuição regular de jornais e acesso desigual ao ensino poderá acabar por condensar parte dessas funções num único dispositivo que cabe no bolso. E isso muda a natureza do debate.
Durante muito tempo, a inclusão digital foi pensada sobretudo a partir da expansão das redes. O objectivo era levar cobertura a mais pessoas. Hoje, porém, começa a surgir um desafio diferente: mesmo onde existe cobertura, milhões de cidadãos continuam sem conseguir participar plenamente na economia digital. Não por ausência de sinal, mas porque o custo de entrada continua elevado.
A questão pode parecer secundária para quem vive nos grandes centros urbanos, mas torna-se evidente quando observamos a realidade africana. Quando um agricultor consulta preços de mercado antes de vender a sua produção, não está apenas a consumir Internet; está a aumentar rendimento. Quando uma estudante frequenta um curso online, não está simplesmente a gastar dados móveis; está a acumular capital humano. Quando um comerciante recebe pagamentos digitais, não está apenas a utilizar tecnologia; está a reduzir custos de transacção. Quando um jovem aprende programação, marketing digital ou design através do telemóvel, não está apenas a navegar online; está a aumentar a sua empregabilidade.
Por outras palavras, para milhões de africanos, a conectividade deixou de ser consumo. Passou a ser produtividade.
É por isso que alguns dos debates mais interessantes sobre desenvolvimento já não acontecem apenas em torno de estradas, barragens, portos ou aeroportos. Estão a acontecer em torno daquilo que alguns especialistas começam a chamar de infra-estrutura de cidadania digital. A ideia é simples: se os países investem em estradas porque as estradas permitem a circulação de pessoas e mercadorias, por que razão não deveriam olhar para a conectividade da mesma forma? Se uma estrada liga aldeias a mercados, a Internet liga pessoas a oportunidades económicas. Se uma ponte reduz distâncias físicas, uma ligação digital reduz distâncias económicas.
Vista por este prisma, a Internet deixa de ser apenas uma telecomunicação e passa a ser uma infra-estrutura de desenvolvimento. É precisamente por isso que vários países e operadores começam a testar abordagens que há poucos anos pareceriam improváveis: tarifas sociais de Internet para famílias vulneráveis, acesso gratuito a plataformas educativas, dados móveis subsidiados para estudantes, utilização de fundos de serviço universal para inclusão digital, acesso gratuito a determinados serviços públicos digitais e programas de distribuição de equipamentos para estudantes e comunidades com menos recursos.
Nenhuma destas soluções resolve o problema por si só, mas todas apontam na mesma direcção: a conectividade está a ser tratada cada vez menos como um luxo e cada vez mais como um requisito básico de participação económica.
África tem razões particulares para prestar atenção a esta tendência. Ao contrário de outras regiões, o continente não construiu primeiro uma extensa rede bancária para depois entrar na era digital. Em muitos casos, saltou etapas. Os pagamentos móveis chegaram antes das agências bancárias. Os smartphones chegaram antes dos computadores. As aplicações financeiras chegaram antes de uma cobertura bancária tradicional abrangente. O resultado é que uma parte significativa da inclusão económica africana dos próximos anos dependerá directamente da inclusão digital.
Será que, daqui a vinte anos, olharemos para a conectividade da mesma forma que hoje olhamos para a electricidade? A comparação pode parecer exagerada, mas também teria parecido exagerado, há cinquenta anos, afirmar que uma economia moderna não poderia funcionar sem energia eléctrica universal. A electricidade continua a ter custo. A água continua a ter custo. As estradas continuam a ter custo. A questão nunca foi a gratuitidade. A questão foi reconhecer que determinados activos são tão importantes para o desenvolvimento colectivo que a sociedade encontra formas de financiar o seu acesso.
Talvez estejamos a aproximar-nos desse momento em relação à conectividade. Não porque a Internet vá deixar de custar dinheiro, mas porque o custo de ficar desligado poderá tornar-se demasiado elevado para indivíduos, empresas e países.
Talvez o maior programa de infra-estruturas de África na próxima década não seja uma estrada, uma barragem ou um porto. Talvez seja colocar um smartphone ligado à Internet no bolso de cada cidadão. Durante décadas, os economistas perguntaram quantas pessoas tinham acesso à electricidade. Nas próximas décadas, talvez perguntem quantas pessoas tinham acesso à inteligência colectiva da humanidade.
Porque é isso que um smartphone ligado à Internet representa: não um telefone, mas uma porta de entrada para conhecimento, mercados, serviços, oportunidades e participação económica. E os países que conseguirem democratizar essa porta poderão descobrir que a sua maior infra-estrutura não está debaixo da terra nem atravessa oceanos. Cabe na palma da mão.
Nota: As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não vinculam clientes ou parceiros.



