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A tecnologia pode acelerar a produtividade e apoiar a transformação da economia angolana, mas os ganhos dependerão da capacidade do país para desenvolver capital humano, instituições e infra-estruturas adequadas, conclui o estudo TIS 360º Insights 2026, que analisa as principais tendências tecnológicas e económicas que deverão marcar Angola e África.
O relatório identifica a inteligência artificial (IA), a automação de processos, a computação em nuvem, o governo digital, a transição energética e a agricultura de precisão como áreas com potencial para aumentar a produtividade, optimizar recursos, criar novos mercados e melhorar a prestação de serviços públicos.
Segundo o estudo, o principal desafio de Angola não é apenas ter acesso às novas tecnologias, mas criar capacidade para as absorver e transformar em resultados económicos, salientando que a adopção tecnológica exige instituições robustas, profissionais qualificados e infra-estruturas complementares, sob pena dos investimentos produzirem resultados limitados ou ampliarem deficiências já existentes.
IA depende sobretudo dos dados e das competências
No que respeita à IA, o relatório considera que Angola deve evitar uma adopção centrada exclusivamente na aquisição de plataformas e modelos, argumentando que a aplicação da IA depende da qualidade dos dados, de profissionais capazes de interpretar os resultados e de processos organizacionais preparados para incorporar as recomendações produzidas pelos sistemas.
Aqui, o estudo identifica como obstáculos os sistemas legados não integrados, os silos de informação, a baixa maturidade na governação de dados e as infra-estruturas tecnológicas não escaláveis. Neste quadro, o relatório defende que a prioridade deve ser a criação de uma base de dados fiável, integrada e organizada antes da implementação de soluções avançadas de IA.
O documento também chama atenção aos riscos associados a decisões automatizadas, sobretudo no sector público, referindo que os sistemas treinados com dados incompletos ou enviesados podem reproduzir ou ampliar desigualdades, enquanto modelos de difícil interpretação podem dificultar a auditoria e a contestação das decisões. A este respeito, o estudo recomenda supervisão humana, transparência, auditorias e conformidade com as regras de protecção de dados.
Automação ainda enfrenta limitações nas empresas angolanas
Relactivamente a automação de processos, o estudo cita uma projecção da Gartner segundo a qual cerca de 40% das aplicações empresariais deverão incorporar funcionalidades baseadas em IA em 2026 e cerca de 70% das novas aplicações deverão ser desenvolvidas com tecnologias low-code/no-code. Todavia, alerta que estas projecções não podem ser directamente transpostas para Angola, onde muitas PME ainda enfrentam limitações de infra-estrutura digital.
Em África, segundo o relatório, a adopção de automação está concentrada sobretudo em multinacionais, bancos estrangeiros, alguns governos e empresas de telecomunicações, enquanto a utilização pelas PME continua limitada pelos custos, pela falta de competências técnicas e pela ausência de processos suficientemente estruturados para automatização.
Dados tornam-se activo estratégico e cloud levanta questão de soberania
Para Angola, o estudo considera que o problema dos dados não está principalmente na quantidade disponível, mas na qualidade, integração e acessibilidade. Informação fiscal, agrícola e de saúde encontra-se frequentemente dispersa, não padronizada ou com cobertura limitada, o que dificulta a utilização de ferramentas analíticas e de IA.
A computação em nuvem é apresentada simultaneamente como oportunidade e risco, com o relatório a apontar como ameaça à soberania a concentração destas infra-estruturas em fornecedores internacionais, sobretudo quando estão em causa informações sensíveis do Estado, como dados de identidade, saúde ou fiscais.
“(A) concentração de infra-estrutura cloud em mãos de três empresas americanas (AWS, Microsoft Azure, Google Cloud) representa risco geopolítico e de dependência tecnológica. Para governo de Angola, armazenar dados sensíveis (identidade, saúde, fiscal) em cloud estrangeira levanta questões de soberania, cibersegurança, e conformidade regulatória (e.g., GDPR europeu não aplica-se necessariamente a dados em data centers fora da UE))”, pode ler-se.
Governo Digital exige mais do que colocar serviços na Internet
No domínio do GovTech, o estudo defende que a transformação digital do Estado não deve limitar-se à migração de serviços para plataformas online. Tal implica, segundo o relatório, repensar a forma como o Estado funciona, gere informação, toma decisões e interage com os cidadãos.
A experiência africana analisada mostra que o sucesso depende de vontade política, modelos de governação claros, reengenharia de processos, competências internas, cibersegurança e confiança dos cidadãos. Neste sentido, defende também a necessidade de integrar, de forma segura, os sistemas públicos de identidade, fiscalidade, saúde e educação.
Angola enfrenta uma dupla transição energética
No sector energético, o relatório identifica para Angola um duplo desafio: reduzir a dependência das receitas petrolíferas e, simultaneamente, avançar para uma matriz energética mais sustentável.
De acordo com o documento, o país dispõe de um potencial estimado em 60 GW de capacidade renovável instalável, mas a exploração desse potencial exigirá investimento, transferência tecnológica, reformas regulatórias e desenvolvimento de cadeias de valor locais.
Todavia, ressalva, a transição energética não deve ser tratada apenas como uma questão de substituição de fontes de energia. Para produzir efeitos económicos duradouros, terá de estar associada à diversificação da economia, à criação de novas cadeias produtivas e à capacidade de absorver trabalhadores e capital libertados pela transformação do sector petrolífero.
Banca digital tem potencial, mas enfrenta défice de confiança e inclusão
Ao nível da banca e dos serviços financeiros, o relatório identifica oportunidades de expansão dos serviços digitais e de inclusão financeira, mas aponta limitações relacionadas com a penetração da Internet, sobretudo nas zonas rurais, a confiança digital e a capacidade regulatória para acompanhar o aparecimento de novos operadores e fintechs.
O estudo estima que apenas 20% a 30% dos adultos em Angola têm acesso a uma conta bancária, abaixo da média africana de cerca de 40%, o que revela simultaneamente uma limitação e uma oportunidade para a expansão dos serviços financeiros digitais.
Tecnologia deve ser encarada como instrumento de transformação económica
Para finalizar, a TIS defende que Angola deve abandonar uma abordagem centrada simplesmente na “adopção de tecnologia” e passar a encarar a transformação digital como parte de uma estratégia mais ampla de transformação económica. Isso implica definir o posicionamento do país na economia global, orientar a transferência de capital e trabalho para sectores de maior produtividade e executar as reformas institucionais necessárias.
O estudo alerta, em particular, para o risco de acreditar que a tecnologia pode resolver, por si só, problemas estruturais. A conclusão é que a tecnologia funciona como um amplificador: pode potenciar capacidades existentes, mas também ampliar deficiências quando estas não são corrigidas.



