Por: Willian Oliveira - CEO da TIS
Um dia desses, navegando pelo YouTube, encontrei um desenvolvedor a desdenhar aqueles que ele chamava de “programadores de markdown”. Na visão dele, esses profissionais, muitas vezes chamados de forma pejorativa de vibe coders, seriam menos competentes, menos técnicos e menos profissionais do que os “programadores de verdade”.
Quando ouvi aquilo, lembrei imediatamente das primeiras linguagens de alto nível. Antes delas, programador de verdade era quem escrevia Assembly. Era quem conhecia registadores, interrupções, pilha de memória e conseguia conversar directamente com a máquina.

Então vieram o Fortran, o Cobol, o Pascal, o C. E sabe o que aconteceu? Os programadores de Assembly disseram exactamente a mesma coisa que alguns dizem hoje sobre IA. Que as novas linguagens estavam a tornar as pessoas preguiçosas, que os novos desenvolvedores não entendiam como a máquina funcionava, que aquilo não era programação de verdade. Mas, a história seguiu o seu curso.
As linguagens de alto nível democratizaram o desenvolvimento de software, aumentaram a produtividade e permitiram criar sistemas muito mais complexos do que seria viável escrevendo tudo em Assembly. Os especialistas em Assembly continuaram a existir. Mas, ficaram restritos aos nichos onde aquela especialização ainda fazia sentido.
Hoje estamos a assistir ao mesmo filme. Só mudaram os personagens. Agora alguns desenvolvedores olham para quem usa IA para criar software e repetem exactamente os mesmos argumentos: “não sabem programar”, “não entendem a máquina”, “não são desenvolvedores de verdade.”
Mas, talvez estejam a observar a mudança pela lente errada. Porque, o que está a acontecer não é o desaparecimento da programação, é mais uma camada de abstração a ser criada. Primeiro programávamos a máquina, depois programávamos linguagens, agora estamos a aprender a programar intenções.
Vale fazer uma distinção honesta aqui. Há uma diferença real entre o salto do Assembly para o C e o que a IA faz: o compilador é determinístico. Produz sempre a mesma saída, é auditável, é confiável. A IA é probabilística, pode gerar código errado com aparência de certo.
Mas, isso não enfraquece o argumento, reforça-o. Se a máquina pode acertar ou errar, entender o problema importa mais, não menos. E é por isso que usar IA para programar não é a mesma coisa que abdicar de pensar. A abstração é legítima, deixar de entender o que se está a construir é que nunca foi, em nenhuma época.
No final, o cliente não compra a ferramenta, não compra Assembly, não compra C, não compra Python, não compra prompts. Ele compra resultados.
Se um problema pode ser resolvido de forma mais rápida, mais barata e mais eficiente, a nova tecnologia inevitavelmente encontrará o seu espaço. Isso não significa que o conhecimento técnico deixou de ser importante, significa apenas que a vantagem competitiva está a migrar: menos tempo a digitar sintaxe, mais tempo a entender problemas, menos tempo a escrever código, mais tempo a desenhar soluções.
A história da tecnologia mostra uma constante:
Toda abstração é ridicularizada antes de ser adoptada e depois que é adoptada, passa a ser considerada óbvia. O futuro não pede licença, ele apenas chega e a única pergunta que resta é: pretendes liderar essa mudança ou reclamar dela?



