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Por: Dário Martins - especialista em telecomunicações e infra-estruturas de rede
Nos últimos meses, o aumento das tensões entre os Estados Unidos e o Irão voltou a trazer para o debate internacional uma preocupação pouco discutida fora dos círculos técnicos: a segurança dos cabos submarinos de fibra óptica.
Apesar de muitas pessoas associarem a Internet a satélites, a realidade é que a esmagadora maioria das comunicações digitais do planeta, cerca de 99%, circula através de cabos instalados no fundo dos oceanos. Estas infra-estruturas silenciosas sustentam praticamente toda a economia digital global, desde transacções financeiras até comunicações governamentais.
Uma das regiões frequentemente mencionadas quando se fala de vulnerabilidade dessas infra-estruturas é o Estreito de Hormuz, corredor estratégico entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico. Por essa zona passam vários cabos que ligam o Médio Oriente, a Ásia e a Europa, incluindo sistemas críticos como o FALCON, SEA-ME-WE 3 e 4, e FLAG FEA.
Num cenário de escalada militar ou instabilidade regional, surge naturalmente a pergunta: um eventual corte desses cabos poderia afectar a Internet noutras partes do mundo?
No caso da África Austral, e particularmente de Angola, a resposta é tranquilizadora. A arquitectura de conectividade internacional da região está construída sobretudo sobre rotas atlânticas e não sobre os corredores digitais do Médio Oriente.
Isto significa que a maior parte do tráfego de Internet que chega a Angola não depende das infra-estruturas que atravessam o Golfo Pérsico.
Angola possui hoje várias ligações estratégicas através de cabos submarinos instalados ao longo da costa ocidental africana. Entre os mais relevantes encontram-se: SACS (South Atlantic Cable System) — 40 Tbps, Angola–Brasil, 6.165 km; WACS (West Africa Cable System) — 14 Tbps, África Ocidental–Europa, 14.000 km; SAT-3/WASC — 12 Tbps, África Ocidental–Europa, 13.000 km; ACE (Africa Coast to Europe) — 20 Tbps, África Ocidental–Europa, 17.000 km; 2Africa — >45.000 km, conecta Angola, África Ocidental, Europa e Médio Oriente, adicionando capacidade e redundância à região.
A existência de múltiplas rotas cria um factor fundamental nas telecomunicações modernas: resiliência. Caso um sistema seja interrompido, o tráfego pode ser automaticamente redireccionado por outras ligações disponíveis.
Mesmo com cabos críticos passando pelo Estreito de Hormuz, a arquitectura atlântica de Angola garante que seu tráfego não seja afectado, reforçando a sua posição como um ponto estratégico do Atlântico Sul.
Além da infra-estrutura submarina, Angola tem a oportunidade de desenvolver infra-estruturas terrestres de fibra óptica ao longo do Corredor do Lobito. Isso permitiria criar uma rota alternativa para dados vindos do interior da África, aumentando redundância e capacidade de interligação regional. A criação deste backbone terrestre, ligando Angola à República Democrática do Congo e à Zâmbia, poderia consolidar o país como um verdadeiro hub regional de telecomunicações.
Num contexto internacional em que a geopolítica das infra-estruturas digitais se torna cada vez mais estratégica, Angola começa a afirmar-se como um ponto geopolítico relevante no Atlântico Sul, capaz de conectar África, Europa e Américas com segurança e resiliência.




