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A dívida da Angola Cables continua a representar a maior exposição creditícia do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), levando o Estado angolano a mobilizar, apenas no último ano, 24,9 mil milhões de kwanzas para a sua regularização junto do Japan Bank for International Cooperation (JBIC, na sigla inglesa), segundo revela o Relatório e Contas 2025 da instituição financeira.
As informações constam das notas às demonstrações financeiras do banco, que identificam a Angola Cables como o cliente com maior peso na carteira de crédito do BDA desde a concessão de três linhas de financiamento em 2017.
Regularização da dívida junto do JBIC
As demonstrações financeiras revelam que o Ministério das Finanças efectuou, ao longo de 2025, vários aportes financeiros destinados especificamente à regularização da dívida da Angola Cables junto do JBIC, instituição financeira japonesa que participou no financiamento do Sistema de Cabos do Atlântico Sul (SACS).
Segundo o BDA, foram desembolsados 11,7 mil milhões de kwanzas em Janeiro, 6,1 mil milhões em Abril, 1,5 mil milhões em Junho e 5,7 mil milhões em Outubro, totalizando 24,9 mil milhões de kwanzas ao longo daquele ano.
O relatório indica ainda que, em Julho de 2024, já havia sido efectuado um desembolso adicional de 8,6 mil milhões de kwanzas com a mesma finalidade, elevando para cerca de 33,5 mil milhões de kwanzas o montante mobilizado pelo Estado desde então para a regularização desta obrigação financeira.
Financiamento ligado ao cabo submarino SACS
A origem da operação remonta a Março de 2016, quando o BDA celebrou um contrato de financiamento externo destinado a permitir à Angola Cables adquirir bens e serviços japoneses para a implementação do cabo submarino SACS, projecto que interliga Sangano, em Angola, e Fortaleza, no Brasil.
O financiamento foi estruturado com recursos disponibilizados pelo Sumitomo Mitsui Banking Corporation (SMBC) e pelo Japan Bank for International Cooperation (JBIC).
Apesar da dimensão da exposição, o relatório esclarece que a operação beneficia de uma garantia soberana emitida pelo Estado angolano. Esta cobertura permite que a exposição fique isenta dos limites prudenciais de concentração de risco normalmente aplicáveis a uma única contraparte.
Angola Cables é o cliente com maior exposição creditícia no BDA
De acordo com o relatório, a exposição bruta do banco à multinacional de telecomunicações ascendia a 253,9 mil milhões de kwanzas no final de 2025, valor que representa, por si só, 42% da exposição total do BDA em investimentos ao custo amortizado. No mesmo período, a exposição líquida situava-se em 174,1 mil milhões de kwanzas, equivalente a cerca de 61% da exposição líquida total da instituição.
“Desde a concepção das três linhas de crédito à empresa Angola Cables em 2017, esta entidade tem sido semestre após semestre o cliente com maior exposição creditícia no Banco. Os montantes foram totalmente concedidos em dólares americanos (USD), encontrando-se parcialmente cobertos por uma garantia soberana emitida pelo Estado angolano”, pode ler-se.
O montante em dívida inclui ainda 64,7 mil milhões de kwanzas relactivos à capitalização de juros acumulados.
O relatório assinala, igualmente, que o BDA reforçou significativamente as imparidades associadas à operação. Durante 2025, o banco reconheceu um reforço de imparidade de 46,7 mil milhões de kwanzas, elevando as perdas acumuladas para 79,8 mil milhões de kwanzas, contra 33,1 mil milhões registados no exercício anterior.
Dívida integra plano de saneamento do banco
O documento refere ainda que o saneamento da dívida da Angola Cables integra o conjunto de medidas consideradas pelo BDA para reforçar a sua posição financeira e apoiar a execução do Plano Estratégico 2023-2027.
Entre as alternativas avaliadas pelo banco figuram aumentos adicionais de capital por parte do accionista, mobilização de financiamento junto de organismos multilaterais, rentabilização de activos não produtivos e a regularização da exposição associada à Angola Cables.
Os dados evidenciam que, quase uma década após a estruturação do financiamento ligado ao projecto SACS, a operação continua a ter impacto relevante na estrutura de risco do BDA, mantendo-se como a sua principal exposição individual e justificando intervenções financeiras sucessivas do Estado para assegurar o cumprimento das obrigações associadas ao financiamento externo.



