Por: Sebastião Jorge – professor e especialista em TIC
A luz azul do ecrã ilumina o rosto de milhões de jovens angolanos todas as noites, em silêncio. À distância de um clique, pulsa um universo vibrante de oportunidades, conhecimento e conexões mundiais. Contudo, por trás da estética perfeita do feed do Instagram ou do ritmo hipnótico dos vídeos do TikTok, esconde-se uma realidade alarmante que urge debater. Como especialista que vive e ensina a engrenagem digital diariamente, afirmo categoricamente: as redes sociais, as ferramentas digitais e as plataformas de Inteligência Artificial não são, por si sós, boas ou ruins. Elas são a tecnologia mais poderosa alguma vez criada, mas o utilizador é quem define o seu proceder. O mesmo martelo que constrói uma casa pode destruir uma vida; a diferença reside sempre na mão que o empunha. No caso da nossa juventude, a mão está a ser moldada por algoritmos desenhados para viciar.
Para compreendermos o abismo actual, precisamos de olhar para trás. A Internet nasceu sob a promessa utópica de democratizar o saber e aproximar a humanidade. No entanto, cientistas e filósofos rapidamente anteviram o reverso da medalha. Já na transição do século, o sociólogo Manuel Castells, na sua obra fundamental “A Sociedade em Rede”, alertava que as novas formas de exclusão e a fragmentação cultural seriam os grandes perigos desta era. Mais tarde, com o nascimento das redes sociais de massas, o filósofo Byung-Chul Han cunhou o conceito de “No Enxame”, descrevendo como a comunicação digital destrói o debate saudável, isola o indivíduo e cria uma falsa sensação de proximidade. O perigo expandiu-se de tal forma que o historiador Yuval Noah Harari tem sido uma das vozes mais activas a alertar sobre a Inteligência Artificial e as redes sociais: se antes os ditadores precisavam de armas, hoje os algoritmos conseguem manipular as mentes humanas, hackeando as nossas emoções e decisões sem percebermos.
Esta ilusão perigosa tem empurrado jovens para redes de esquemas ilícitos e burlas financeiras digitais, ou para redes de prostituição camuflada, muitas vezes mascaradas como serviços legítimos de “massagens” ou agências de modelos nas redes sociais. Esta pressa digital reflete-se ainda num empobrecimento alarmante da linguagem, onde o dialecto virtual de abreviações e os erros ortográficos grosseiros invadem as provas escolares de forma incorrecta. Além disso, a busca cega pela polémica e pelo exibicionismo moral para ganhar visualizações gera uma ruptura cultural agressiva que choca de frente com os preciosos valores tradicionais angolanos de solidariedade comunitária, valorização da família alargada e o respeito sagrado pelos mais velhos.
O objectivo com este alerta não é, de forma alguma, diabolizar a tecnologia ou afastar do mercado digital, mas sim apelar a uma urgente literacia digital para que se aprenda a dominar estes ecrãs em vez de se ser dominado por eles. É preciso deixar de ser um consumidor passivo e alienado, que aceita tudo o que o algoritmo dita, para haver uma transformação em produtor crítico, consciente e senhor das próprias escolhas. Desconectar do ruído virtual que desmorona os laços familiares e resgatar o controlo da atenção é fundamental, compreendendo, de uma vez por todas, que a vida não se resume a um tribunal de comentários e que a realidade, com todas as conquistas lentas e imperfeições, é o único espaço genuíno onde a felicidade e o futuro se constroem com dignidade.



