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A África Subsaariana continua a ser a região do mundo com menor utilização de Internet móvel, apesar do avanço da cobertura das redes, revela o relatório The State of Mobile Internet Connectivity 2026, da GSMA.
De acordo com o documento, em 2025 apenas 25% da população da região utilizava Internet móvel através do próprio dispositivo, enquanto 66% vivia em áreas com cobertura de banda larga móvel, mas não utilizava o serviço, formando o maior défice de utilização (usage gap) entre as regiões analisadas.
Na África Subsaariana, o défice de cobertura também era o mais elevado nesse período, atingindo 9% da população da região, contra a média mundial que era de 59% de utilização de Internet móvel, 38% de défice de utilização e 3% de população sem cobertura de banda larga móvel.
Como a África Subsaariana se compara às demais regiões? No mesmo período, na Europa e Ásia Central, 78% da população utilizava Internet móvel, enquanto a proporção era de 79% na América do Norte, 64% na América Latina e Caraíbas, 48% no Médio Oriente e Norte de África, 46% na Ásia do Sul e 21% na Ásia Oriental e Pacífico.
O relatório revela, contudo, que quando se considera apenas a população adulta, a utilização de Internet móvel na África Subsaariana sobe para 42%, ainda assim mais de metade dos adultos permanecia offline. A região está entre as três do mundo com maior proporção de população com menos de 18 anos, juntamente com a Ásia do Sul e o Médio Oriente e Norte de África, o que explica parte da diferença entre os indicadores da população total e dos adultos. Na Ásia do Sul, por exemplo, a utilização entre adultos chegava a 59%, contra 64% no Médio Oriente e Norte de África.
Cobertura avança, mas a distância permanece
A expansão das redes móveis teve um avanço significativo na África Subsaariana, com a região a responder por mais da metade do crescimento mundial da cobertura 4G em 2025, encerrando o ano com 81% da população dentro do alcance dessa tecnologia. Ainda assim, o défice de cobertura continuou a ser o maior entre as regiões analisadas e o progresso para o reduzir desacelerou.
Oito países da região apresentavam, em 2025, um défice de cobertura igual ou superior a 15%, dos quais sete eram classificados como países menos desenvolvidos, nomeadamente Burkina Faso, Burundi, República Centro-Africana, Chade, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial, Gâmbia e Sudão do Sul.
A situação contrasta com a evolução global das redes, uma vez que em 2025 97% da população mundial já vivia numa área coberta por uma rede de banda larga móvel, a cobertura 4G alcançava 94% da população mundial (7,7 mil milhões de pessoas), enquanto o 5G chegava a 57%, equivalente a 4,7 mil milhões de cidadãos. Na África Subsaariana, o relatório d GSMA destaca o avanço do 4G, mas não apresenta a região como parte do crescimento global do 5G na mesma escala observada noutras regiões.
Nos países de baixo e médio rendimento, 51% da população já tinha cobertura 5G em 2025, contra 84% nos países de rendimento elevado. Entre os grupos de países de baixo e médio rendimento, a cobertura 5G permanecia muito mais baixa nos países menos desenvolvidos, sem litoral e pequenos Estados insulares, com 9%, 12% e 17%, respectivamente.
Equipamentos ainda limitam a adopção
A diferença entre cobertura e utilização está também relacionada com o acesso aos dispositivos. Em todo o mundo, 70% das pessoas que integram o défice de utilização não possuem um dispositivo. Na África Subsaariana, essa proporção também era de 70% quando considerada a população total, mas caía para 29% quando analisada apenas a população adulta, diferença que a GSMA relaciona com a estrutura etária mais jovem da região.
O tipo de equipamento utilizado também revela uma diferença significativa, pois, segundo o estudo, mais de 85% dos utilizadores de Internet móvel em todo o mundo já acediam ao serviço através de smartphones 4G ou 5G em 2025, mas na África Subsaariana 50% dos utilizadores ainda dependiam de smartphones 3G ou telemóveis básicos, contra 13% no conjunto mundial.
A utilização através de smartphones continuou, por isso, mais limitada na região enquanto globalmente 4,6 mil milhões de pessoas, equivalentes a 56% da população mundial, utilizavam o seu próprio smartphone para aceder à Internet móvel no final de 2025.
Custo dos equipamentos pesa mais na região
A acessibilidade dos dispositivos aparece como uma das principais barreiras à adopção da Internet móvel nos países de baixo e médio rendimento e é particularmente relevante na África Subsaariana. Segundo o relatório, um equipamento de entrada com acesso à Internet representava, no final de 2025, 44% do rendimento mensal dos 20% mais pobres nos países de baixo e médio rendimento. Na África Subsaariana, esse peso chegava a 76%.
O relatório chama ainda a atenção para o aumento do custo dos chips utilizados nos smartphones, sustando que entre o terceiro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, os preços destes componente mais do que duplicaram e voltaram a aumentar entre 80% e 90% no segundo trimestre de 2026.
A GSMA considera que esta evolução coloca pressão adicional sobre os smartphones de entrada, particularmente importantes nos mercados onde o poder de compra é mais baixo, como é em vários países da África Subsaariana.
E o impacto já é visível nas perspectivas para o mercado, com o relatório a estimar que os envios de smartphones na África Subsaariana deverão diminuir em 16 milhões de unidades em 2026, uma redução superior a um quarto face a 2025. Globalmente, a previsão aponta para uma queda de 14%, ou 174 milhões de smartphones.
Como reportado pelo Portal de T.I, o mercado africano de smartphones deverá contrair 26% este ano, devido ao aumento dos preços dos equipamentos e à consequente pressão sobre o poder de compra dos consumidores.
Internet móvel continua cara para os rendimentos mais baixos
O custo dos dados constitui outra diferença importante: na África Subsaariana, 20 GB de dados correspondiam, em 2025, a 14% do rendimento mensal médio, cinco vezes a mediana registada no conjunto dos países de baixo e médio rendimento. Para os 20% mais pobres da população da região, o mesmo volume representava 44% do rendimento mensal médio.
No conjunto dos países de baixo e médio rendimento, a acessibilidade de 20 GB manteve-se praticamente inalterada em 2025. Para 5 GB, a mediana era equivalente a 1,8% do rendimento mensal médio, mas subia para 6,3% entre os 20% mais pobres.
Dos 131 países de baixo e médio rendimento com dados disponíveis sobre o preço de 5 GB, 61, ou 47%, ainda não tinham atingido a meta de tornar esse volume de dados acessível por menos de 2% do rendimento mensal. Quando se considera o rendimento médio dos 40% mais pobres, o número sobe para 94 países, ou 72%.
A África Subsaariana, no entanto, também registou progressos neste indicador, com a GSMA a afirmar que a melhoria da acessibilidade de 5 GB entre 2021 e 2024 foi impulsionada em grande parte pela região, enquanto em 2025 o indicador permaneceu praticamente inalterado.
Desigualdades rural e de género permanecem
As diferenças de acesso também variam segundo o local de residência e o género. Nos países de baixo e médio rendimento, os adultos que vivem em zonas rurais eram, em 2025, 28% menos propensos a utilizar Internet móvel do que os residentes em zonas urbanas.
A desigualdade de género também persistia, visto que as mulheres nos países de baixo e médio rendimento eram 12% menos propensas a utilizar Internet móvel do que os homens, diferença equivalente a cerca de 200 milhões de mulheres. Durante o período em análise, mais de dois terços das 810 milhões de mulheres que ainda não utilizavam Internet móvel nesses países viviam na África Subsaariana e na Ásia do Sul.
No conjunto dos países de baixo e médio rendimento, as mulheres representavam 58% do défice de utilização entre adultos. Na África Subsaariana, a distribuição era semelhante: as mulheres representavam 57% do défice de utilização entre adultos, contra 43% para os homens.
África Subsaariana também regista menor utilização de dados
A diferença regional não se limita ao número de pessoas ligadas mas também ao tráfego de Internet. Neste aspecto, a África Subsaariana registava, em 2025, o menor tráfego médio de dados por ligação entre as regiões analisadas e também o menor crescimento anual desse indicador.
A nível mundial, o tráfego médio chegou a 13,5 GB por ligação por mês, contra 12 GB em 2024, num aumento que foi associado principalmente à migração contínua para redes 4G e 5G. As velocidades também cresceram: a média mundial de download aumentou 22%, ou 14 Mbps, em 2025.
Apesar desse avanço global, a diferença entre grupos de rendimento permaneceu significativa. As velocidades médias de download nos países de rendimento elevado eram cerca de 3,5 vezes superiores às registadas nos países de baixo e médio rendimento, enquanto as velocidades de upload eram aproximadamente 1,5 vezes superiores.
Défice de utilização domina o cenário mundial
Os dados globais mostram que a principal barreira à expansão da Internet móvel deixou de ser apenas a existência de redes. Em 2025, 4,8 mil milhões de pessoas, ou 59% da população mundial, utilizavam Internet móvel através do próprio dispositivo, enquanto 3,4 mil milhões não utilizavam o serviço.
Destes, 3,1 mil milhões, equivalentes a 38% da população mundial, viviam em áreas já cobertas por banda larga móvel, mas continuavam sem utilizar a Internet móvel, enquanto 270 milhões de pessoas, ou 3% da população mundial, viviam em áreas sem cobertura.
O número de novos utilizadores também desacelerou, com cerca de 160 milhões de pessoas a começarem a utilizar Internet móvel através do próprio dispositivo em 2025, contra 190 milhões em 2024, enquanto outros 650 milhões acediam ao serviço exclusivamente através de equipamentos emprestados ou partilhados.
A África Subsaariana concentra uma parcela significativa deste défice, com cerca de 820 milhões de pessoas em 2025, segundo o relatório. A Índia registava o maior défice absoluto, com 710 milhões de pessoas, seguida da China, com 200 milhões, enquanto Nigéria e Paquistão apresentavam 140 milhões cada e a Etiópia 100 milhões.
Os dados da GSMA mostram, assim, que o desafio da conectividade na África Subsaariana ocorre em várias etapas: a região ainda possui o maior défice de cobertura, mas, sobretudo, uma parcela muito maior da população já vive dentro do alcance das redes e continua sem utilizar Internet móvel.
Ademais, o acesso a equipamentos, o custo dos dados, as diferenças entre áreas urbanas e rurais e as desigualdades de género permanecem entre os factores que condicionam a utilização.



