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Um estudo científico internacional publicado na revista Environmental Science and Policy conclui que a vulnerabilidade social à seca varia significativamente entre municípios do país e defende que políticas públicas de resposta a desastres climáticos devem ser planeadas com base em indicadores locais mais detalhados.
O trabalho, desenvolvido por investigadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), da Universidade de Maryland e por especialistas do Gabinete de Gestão do Programa Espacial Nacional (GGPEN), propõe a criação de novo um Índice de Vulnerabilidade Social (SVI) aplicado ao território nacional para apoiar sistemas de decisão no combate aos efeitos da seca.
O objectivo, defendem, é fornecer métricas que permitam comparar o grau de vulnerabilidade entre diferentes regiões do país e melhorar o planeamento de políticas de mitigação de riscos climáticos.
Ao Portal de T.I o co-autor do estudo, Zolana João, director do GGPEN e investigador associado do MIT, afirma que o trabalho representa a primeira tentativa de construir um índice de vulnerabilidade social à seca a nível municipal em Angola. Segundo o responsável, o modelo combina dados de observação da Terra por satélite, informação censitária e indicadores demográficos e de saúde para apoiar sistemas de decisão e políticas públicas de gestão do risco climático.
Os resultados do estudo indicam que os municípios de Belize (Cabinda), Belas (Luanda) e Calandula (Malanje) surgem entre os mais vulneráveis, enquanto Cuito (Bié), Luanda e Longonjo (Huambo) apresentam os níveis mais baixos de vulnerabilidade social face à seca.
A análise revela ainda que os municípios mais e menos vulneráveis não estão concentrados numa única região, o que reforça a necessidade de avaliações ao nível municipal, em vez de análises apenas provinciais.
“Este trabalho procura ligar tecnologia espacial, investigação académica e instituições públicas em Angola para melhorar a compreensão da vulnerabilidade à seca. Os resultados mostram que essa vulnerabilidade não é uniforme entre municípios e que indicadores ambientais isolados são insuficientes, exigindo a integração de factores sociais, económicos, agrícolas, de saúde e de infra-estruturas nos sistemas de apoio à decisão. A ponte, entre o espaço, a investigação e a governação, é onde começa a verdadeira transformação”, afirmou Zolana João.
Índice combina dados sociais, económicos e ambientais
O índice proposto pelos investigadores agrega múltiplos indicadores sociais e económicos num único valor numérico capaz de medir a vulnerabilidade das populações. Entre os factores considerados estão condições agrícolas, demográficas, económicas, de saúde, infra-estruturas físicas e aspectos sociais, permitindo avaliar simultaneamente a sensibilidade das comunidades à seca e a sua capacidade de adaptação.
Para construir o modelo, os investigadores recorreram a diversas fontes de informação, incluindo observações por satélite, inquéritos demográficos e de saúde e dados censitários nacionais. Os indicadores foram posteriormente combinados através de dois métodos de ponderação distintos, um baseado em pesos iguais e outro definido a partir da opinião de especialistas.
De acordo com o estudo, este tipo de índice é particularmente útil para decisores públicos porque permite comparar vulnerabilidades entre regiões e orientar intervenções prioritárias, como programas de assistência alimentar, infra-estruturas de água ou apoio à agricultura.
Ferramenta para sistemas de apoio à decisão
O estudo integra um projecto mais amplo de desenvolvimento de um sistema de apoio à decisão para gestão de secas, que combina indicadores sociais com dados ambientais obtidos por satélite. O objectivo é permitir que autoridades públicas identifiquem rapidamente áreas em risco e adoptem medidas de prevenção ou mitigação de forma mais eficaz.
Os autores defendem que a integração de informação social com dados ambientais pode melhorar significativamente a capacidade de resposta a fenómenos extremos, sobretudo em países onde a variabilidade climática tem impacto directo na segurança alimentar e nos meios de subsistência.
Recordam ainda que Angola tem enfrentado episódios recorrentes de seca nas últimas décadas, particularmente nas regiões do sul, onde grande parte da população depende da agricultura de subsistência. Eventos prolongados de seca têm provocado perdas económicas e agravado situações de insegurança alimentar.
Perante este cenário, argumentam que ferramentas analíticas capazes de identificar diferenças de vulnerabilidade dentro do próprio país podem ajudar o governo e as organizações internacionais a orientar melhor os recursos disponíveis e a reduzir o impacto humano de futuros episódios de seca.




