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As fraudes financeiras provocaram perdas globais estimadas em 442 mil milhões de dólares norte-americano em 2025 e consolidaram-se entre as principais ameaças criminais mundiais, segundo o relatório Global Financial Fraud Threat Assessment 2026 da Interpol. O documento identifica crescimento acelerado da criminalidade digital e destaca África como uma das regiões de expansão mais rápida.
Entre 2024 e 2025, os alertas policiais internacionais divulgados pela Interpol aumentaram 54% no mundo. A Europa registou 69%, África Subsaariana 60%, a Ásia-Pacífico 47%, as Américas 40% e o Médio Oriente e Norte de África 17%. O continente africano supera as Américas e a Ásia no ritmo de expansão e aproxima-se do padrão europeu.
Segundo o documento, a fraude financeira transformou-se numa indústria global organizada, com plataformas digitais a serem utilizadas pelos criminosos em operações simultâneas em vários países, para reduzir o baixo risco operacional das suas redes criminosas.
Em todo o mundo, os esquemas entre os dominantes destacam-se fraudes de investimento em plataformas falsas, compromisso de e-mails empresariais, usurpação de identidade institucional, burlas românticas com extorsão sexual e redes de centros de burla ligadas a tráfico humano.
Tipos de fraude na África Subsaariana

Créditos: Interpol
As fraudes de investimento originadas na África Ocidental e Austral, através de aplicações e plataformas de criptomoedas fraudulentas, dirigidas sobretudo a vítimas na Europa e América do Norte. Há também o comprometimento de e-mails empresariais, que afecta os sectores financeiro, energético, educativo e de saúde, explorando fragilidades de segurança digital.
Identificam-se ainda as fraudes romântica, que, segundo a Interpol, evoluem para extorsão sexual digital e atingem principalmente jovens utilizadores de redes sociais.
Inteligência artificial e industrialização da fraude
A inteligência artificial tornou-se ferramenta central para redes criminosas, permitindo automatizar operações, aumentar a credibilidade dos esquemas e gerar receitas até 4,5 vezes superiores às obtidas por métodos tradicionais, refere o relatório.
Segundo a Interpol, os criminosos recorrem cada vez mais à clonagem de voz para simular executivos, criação de vídeos falsos, identidades sintéticas e sistemas conversacionais que conduzem vítimas a investimentos fraudulentos.
Centros de burla e exploração de jovens
De acordo com a organização, África funciona simultaneamente como origem de redes criminosas e território de expansão de operações internacionais de burla.
Neste quadro, a Interpol assinala a deslocação geográfica dos chamados “centros de burla”, que são estruturas que antes eram concentradas no Sudeste Asiático, mas que expandem-se agora para África Ocidental. Essas redes criminosas atraem jovens com falsas promessas de emprego e obrigam-nos a participar em esquemas fraudulentos.
Para a sua operacionalização, são utilizados modelos de pirâmide financeira, marketing multinível fraudulento e sistemas móveis de pagamento. A Interpol refere que a configuração destas actividades em África apresenta menor sofisticação tecnológica, mas por estar fortemente enraizada em redes comunitárias, dificulta a detecção.
Os danos, refere o documento, vão além das perdas financeiras. Vítimas enfrentam trauma psicológico prolongado, isolamento social e perda de confiança institucional. Casos de suicídio associados a burlas financeiras surgem em vários países, no entanto, a vergonha e o estigma impedem muitas vítimas de denunciar os crimes
Fraude financeira e terrorismo
O relatório alerta para a ligação crescente entre fraude financeira e financiamento de grupos terroristas activos em África. Uma operação internacional identificou esquema fraudulento baseado em activos digitais que afectou 100 mil vítimas em 17 países, gerando perdas de 562 milhões de dólares. Parte dos fluxos financeiros foi associada a redes terroristas na África Central.
A Interpol destaca vulnerabilidades estruturais no continente, incluindo sistemas informais de transferência de valores, regulação financeira limitada e digitalização acelerada sem infra-estruturas de segurança robustas.
Projecções e risco futuro para África

Créditos: Interpol
Para o continente berço, as projecções indicam agravamento sustentado da fraude financeira nos próximos três a cinco anos. África apresenta níveis elevados de risco económico, segurança regional, estabilidade social e robustez institucional, deixando de ocupar posição periférica e afirmando-se como território estratégico na geografia global do crime financeiro.




