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Angola tem registado progressos significativos na interconectividade nacional e na adopção do protocolo IPv6, embora persistam desafios ligados aos custos de infra-estrutura e à falta de conhecimento técnico sobre o funcionamento dos Pontos de Troca de Tráfego (IXP), afirmou nesta quinta-feira (6) o vice-presidente do Conselho do Angola Network Operators Group (AONOG) e Angola Peering Forum (AOPF), Ernesto Alberto.
Em entrevista ao Portal de T.I, durante o primeiro dia do fórum que encerrou hoje, em Luanda, o responsável revelou que Angola possui actualmente 73 números de sistemas autónomos (AS numbers) atribuídos, dos quais cerca de 68 estão activos. No entanto, apenas uma pequena parte desses sistemas participa efectivamente em peering nos dois IXPs nacionais (Angola IXP e o Angonix).
“Dos 68 operadores activos, cerca de 15 a 20 fazem peering efectivo. Os restantes ainda dependem de ligações internacionais para troca de tráfego local”, explicou, sublinhando que o objectivo é aumentar a adesão nacional aos IXPs e reduzir a dependência do tráfego internacional.
Os “AS Numbers” são identificadores únicos atribuídos a redes independentes na Internet, como operadores, provedores ou instituições públicas. Têm um papel essencial na gestão e encaminhamento do tráfego local, permitindo que as redes interliguem-se directamente através de peering, o que reduz custos, aumenta a eficiência e melhora a qualidade das ligações dentro do país.
Entre os principais entraves para o aumento da interligação, o Ernesto Alberto apontou o custo elevado das ligações até aos pontos de interconexão e, em alguns casos, a falta de conhecimento técnico sobre as vantagens do peering, pois “ainda há operadores que questionam por que razão devem ligar-se a um IXP”.
Nestes casos, referiu, o trabalho do grupo tem passado também pela sensibilização, de modo a mostrar que a interligação aos IXPs é benéfica, ajuda a aumentar a eficiência e reduz os custos operacionais.
O vice-presidente destacou ainda como passo positivo a transferência do domínio de topo de Angola (.ao) para servidores locais, permitindo a retenção do tráfego local, embora reconheça que o processo ainda precisa ser consolidado.
Ernesto Alberto defende que o domínio deve estar ligado aos IXPs nacionais para que o tráfego circule internamente sem depender de rotas internacionais. “A migração foi um bom começo, mas ainda há trabalho técnico por fazer”.
Voltando-se às infra-estruturas que fazem circular o tráfego, o gestor falou sobre a necessidade de novas rotas para cabos submarinos, uma vez que as passam pela bacia do Congo vão mostrando alguma vulnerabilidade nos últimos anos.
Para Ernesto Alberto, as rotas alternativas devem incluir mais ligações via terrestre e novos pontos de ancoragem.
“Podemos explorar as nossas zonas fronteiriças para entrarmos e sairmos com os nossos conteúdos sem dependermos apenas dos cabos submarinos, tendo em contas os cortes que vão acontecendo na bacia do Congo”, disse.
Vale referir que estão actualmente em curso projectos de cabos submarinos como o 2Africa, que estudam rotas alternativas para se ligarem a Angola, evitando as zonas onde já ocorreram cortes. No entanto, ainda não está confirmado se essa mudança será efectivada.
Há ainda o projecto SEACOM 2.0 que prevê ligar-se ao país através de Benguela, e não de Luanda, um passo importante para descentralizar os pontos de aterragem, actualmente concentrados em Luanda e, mais recentemente, por conta da Nova Divisão Política e Administrativa, também na província de Icolo e Bengo.
Prevê-se que o SEACOM 2.0 passe pelo Oceano Índico, ligando-se a vários países da África Oriental antes de alcançar o Oceano Atlântico, ligar-se à África do Sul e, finalmente, a Angola por via da cidade do Lobito. Ernesto Alberto mostra-se optimista sobre a capacidade de redundância que estes projectos poderão incrementar ao tráfego nacional, uma vez concretizados.
No capítulo da evolução da Internet, o responsável destacou o crescimento exponencial da adopção do IPv6 em Angola, que passou de 0% em 2020 para 13,8% em 2025, conforme conferem os dados da Google. Segundo referiu, operadores como Unitel, ITA, Zap e TVCabo estão entre os que mais têm impulsionado a migração.
“O crescimento é encorajador e deverá continuar a aumentar nos próximos anos à medida que mais utilizadores e dispositivos se interligarem”, afirmou.
Quanto ao futuro da integração digital a nível da região, Ernesto Alberto mostrou-se confiante, antevendo um reforço do papel do país para a integração regional se o investimento em infra-estruturas não cessar.
“Angola está a dar passos firmes com novos cabos e projectos de interligação fronteiriça. Se o investimento em infra-estruturas continuar, poderemos expandir o acesso à Internet e consolidar o nosso papel na conectividade da África Austral”, referiu.
O AONOG surgiu em 2016 como uma iniciativa da Associação Angolana de Internet (AAI), tendo o primeiro evento sido realizado naquele ano. Três anos depois, em 2019, o grupo fundiu-se com o Angola Peering Forum (AOPF), criado por Darwin Costa, para fortalecer o debate técnico e atrair oradores internacionais.
Para Ernesto Alberto, o AONOG e o AOPF são fruto do trabalho de uma comunidade voluntária que anualmente promove o intercâmbio técnico e operacional entre operadores, engenheiros e instituições. Desde a fusão, destaca, “temos assistido a uma participação crescente de oradores nacionais, o que mostra um amadurecimento do ecossistema”, finalizou.




