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Jornalismo de Prompt: a nova era do jornalismo assistido por inteligência artificial

Jornalismo de Prompt: a nova era do jornalismo assistido por inteligência artificial
Imagem: Ferreira Manuel via Copilot

A popularização dos computadores pessoais e da Internet, entre os anos 1980 e 2000, conduziu as redacções a buscar formas de assimilar o potencial destes recursos tecnológicos, avaliando a sua utilidade e possíveis modos de integração pelos media.

Em Angola, tratou-se de um período de transição, que conduziu, de forma gradual, à integração desses recursos nas redacções, dando início a uma nova etapa: a passagem do jornalismo clássico ao digital, num processo que ganhou maior expressão no país entre os anos de 2002 e 2004, com o surgimento de alguns sites angolanos na Internet (Buka, 2017).

Jornalismo Móvel

A partir de 2010, um pouco por todo o mundo, sobretudo no Ocidente, o foco virou-se ao Jornalismo Móvel: uma produção massiva de conteúdos para dispositivos móveis que usa algoritmos e dedica especial atenção ao consumo de informação nas redes sociais.

Este processo envolveu um forte uso de inteligência artificial (IA) pelos jornalistas, embora, em muitos casos, não se percebesse pelo facto de estar “escondida” em ferramentas como motores de busca (Google e Bing), sistemas de recomendação e personalização de conteúdo (Google News, Flipboard), reconhecimento e transcrição de voz (Dragon NaturallySpeaking) e fact-checking (PolitiFact e FactCheck.org).

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Com o boom das redes sociais, a disponibilidade de informações possíveis de noticiar cresceu tanto que vários media começaram a recorrer à IA para conseguir acompanhar, avaliar e classificar com critérios de noticiabilidade essa produção que ocorria na Internet.

Foi também nesse contexto que em 2017, por exemplo, a Reuters lançou o News Tracer, plataforma baseada em IA e que valida, em tempo real, a informação publicada no Twitter. À data, era capaz de rastrear diariamente até 700 mil tweets à busca de informação possível de noticiar, agrupando-a por temas e construindo um ranking de noticiabilidade que sinaliza as informações a merecer a atenção dos jornalistas (Canavilha, 2023).

Neste período, entretanto, a IA continuava a ser um assunto muito técnico, discreto e restrito principalmente a especialistas. Estava longe do centro das discussões públicas e do quotidiano da produção jornalística. A ruptura total deste paradigma seria feita às mãos da startup OpenAI com o lançamento do ChatGPT em 2022, uma ferramenta sob a qual temos um artigo que pode ler aqui.

Jornalismo de Prompt

Assim como ocorreu no início da integração dos computadores e da Internet nas redacções, vemos hoje o começo de uma nova era no Jornalismo, uma era em que a actividade jornalística passa a ser assistida por recursos de inteligência artificial. 

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Os jornalistas são convidados a assimilar, e com rapidez, uma nova cultura jornalística, uma que inclua a IA. Trata-se de uma transformação profunda das práticas, da mentalidade sobre como pensar e produzir o produto jornalístico, e da adaptação dos valores clássicos do jornalismo para um novo contexto em que máquinas passam a participar activamente nesse processo.

Essa assimilação passa naturalmente pela compressão do chamado Jornalismo de Prompt, uma abordagem de produção que se revelou útil aos jornalistas essencialmente a partir de 2022, com o lançamento do ChatGPT. Embora as suas raízes remontem a 2020, aquando do lançamento do modelo GPT-3 pela OpenAI.

No Jornalismo, essa prática pode ser entendida como uma abordagem especializada que consiste na criação estratégica de instruções, destinadas a melhorar e simplificar a produção de conteúdos informativos através da utilização de ferramentas de IA. A ideia aqui é orientar os modelos de IA a executarem tarefas com base em comandos que sejam simples e curtos, para obter os melhores resultados.

Particularidades do Jornalismo de Prompt

O que distingue o Jornalismo de Prompt não é o uso comum de chatbots. É, sim, o domínio técnico e estratégico da linguagem de comando. A partir de perguntas, pedidos e instruções cuidadosamente elaboradas, o jornalista passa a operar como um engenheiro de prompts, capaz de extrair da IA textos que simulam, entre outros, reportagens, resumos, manchetes, guias e análises.

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Potencial e desafios

Se, por um lado, o Jornalismo de Prompt representa uma promessa de eficiência, por outro, é também um campo de riscos. E cabe aos profissionais encarar esse dilema com conhecimento, maturidade e responsabilidade.

De acordo com um relatório do centro de investigação centrado na análise das dinâmicas comunicacionais contemporâneas OberCom, essa abordagem reposiciona o jornalista na produção noticiosa, deslocando-o da redacção directa para funções mais estratégicas, como a formulação de comandos, validação editorial e curadoria de conteúdos assistidos por IA.

O problema, no entanto, como admite o observatório, reside na falsa sensação de fiabilidade que os resultados obtidos podem transmitir. Os grandes modelos de IA generativa existentes, por mais impressionantes que sejam, ainda não dispõem de ferramentas internas verificação de factos, pelo que não garantem o rigor e a precisão necessária das informações fornecidas, pondo em risco valores essenciais do jornalismo.

Além disso, o domínio da engenharia de prompts exige competências específicas que ainda não fazem parte do repertório técnico de muitos jornalistas. Trata-se de uma linguagem nova que inclui diversas técnicas, como o zero-shot prompting, o few-shot prompting e o chain-of-thought prompting, que exigem treino contínuo, compreensão do funcionamento dos modelos de IA e atenção redobrada à ética jornalística. Neste domínio, o risco de gerar ou multiplicar conteúdos enviesados, imprecisos ou violadores de direitos autorais é real, e grave.

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Mas, os jornalistas não devem ignorar o potencial transformador dessa abordagem. Aliás, o relatório do OberCom, por exemplo, destaca que, se usado com critérios éticos e domínio técnico, o Jornalismo de Prompt pode ajudar a personalizar conteúdos, automatizar tarefas repetitivas, ampliar a produtividade e até democratizar o acesso à informação.

É por isso que conglomerados mediáicos como o The New York Times, El País, The Guardian e a BBC já estabeleceram protocolos internos para regular a sua utilização nas suas redacções, não apenas para definir o que pode ser feito, mas também para deixar claro o que não deve ser feito.

O que se espera dos jornalistas

Neste contexto, a questão central não é mais se os profissionais devem adoptá-lo, mas como devem fazê-lo. A tendência jornalística actual em Angola, onde os media apostam cada vez mais numa transição “agressiva” para o Webjornalismo,  indica que a adopção do Jornalismo de Prompt, uma vez inevitável, deve passar pela formação contínua, pela criação de políticas claras nas redacções, pela transparência com os leitores e por uma defesa activa dos princípios deontológicos do Jornalismo.

Isto porque, como declarámos no artigo anterior sobre a relação entre IA e Jornalismo, que pode ler aqui, a essa tecnologia pode ser uma aliada poderosa, mas não pode substituir o olhar crítico, o juízo ético e a responsabilidade pública que definem o Jornalismo.

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Como referiu a professora, jornalista e estudiosa dos impactos da IA no Jornalismo, Sandra Mainsel, durante uma troca de impressões que mantivemos recentemente sobre este assunto, “A escolha está nas mãos dos profissionais e das instituições: ou usamos esta tecnologia para reforçar o Jornalismo, ou deixamo-nos dominar por ela, enfraquecendo o papel social da informação. Em Angola, mais do que uma tendência, o prompt deve ser uma ferramenta crítica ao serviço da verdade, da cidadania e da inclusão”.

Aos jornalistas, portanto, não basta saber usar um prompt: é preciso saber quando usá-lo, com que limites e com que consequências. Porque, se o prompt for visto apenas como um “amo” digital que resolve tudo, corremos o risco de transformar o Jornalismo num exercício automático, desprovido de consciência editorial e desligado da realidade social que o sustenta.

Entretanto, se o prompt for visto como um recurso que amplia as possibilidades do trabalho humano sem eliminar a relevância do jornalista, talvez esta nova forma de fazer Jornalismo não precise ser temida. Apenas estudada, padronizada e, acima de tudo, regulada.

Referências:

Buka, R. (2017). Jornalismo online em Angola: Características e evolução. Webartigos.com. Recuperado de https://www.webartigos.com/artigos/jornalismo-online-em-angola/162803

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Canavilhas, J. (2023). Manual de jornalismo na Web. LabCom – Universidade da Beira Interior. https://labcomca.ubi.pt/manual-de-jornalismo-na-web/

Couraceiro, P., Paisana, M., Vasconcelos, A., Pereira, J., Pinto‑Martinho, A., Cardoso, G., Baldi, V., et al. (2025). Jornalismo de prompt: Boas‑práticas para a utilização de IA generativa no jornalismo. OberCom – Observatório da Comunicação. https://doi.org/10.5281/zenodo.15463513

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