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Temidayo Oniosun: “é urgente formar jovens e desenvolver a tecnologia espacial em África”

Temidayo Oniosun: “é urgente formar jovens e desenvolver a tecnologia espacial em África”

A indústria espacial africana está a crescer, mas continua a enfrentar obstáculos estruturais que limitam a soberania tecnológica do continente. Este foi um dos pontos-chave da conversa que tivemos com o director executivo da Space in Africa, Temidayo Oniosun, à margem da 5.ª edição do Fórum Internacional de Tecnologias de Informação e Comunicação de Angola (ANGOTIC).

O cientista espacial nigeriano, que dirige uma das principais plataformas de inteligência de mercado do sector espacial africano, analisou os avanços, as fragilidades e os caminhos possíveis para o futuro espacial no continente berço.

Portal de T.I (PTI): O relatório da Space in Africa sobre gastos no sector espacial africano indica uma redução no orçamento global dos programas espaciais em relação a 2024. Como interpreta este recuo?

Temidayo Oniosun (T.O): Verificámos que os orçamentos para este ano são ligeiramente inferiores aos do ano passado. Isso deve-se, primeiro e sobretudo, à desvalorização das moedas locais. Em moeda local, os orçamentos até aumentaram, mas quando convertidos para dólares, aparentam ser mais baixos.

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Por exemplo, a Nigéria aprovou um orçamento espacial para 2025 de 94,30 mil milhões de Naira (cerca de 61,30 milhões de dólares), refletindo um aumento de 47,5% em relação aos 50,37 mil milhões de Naira do ano anterior. Mas, a desvalorização cambial levou o valor para em 48,30 milhões de dólares, abaixo dos 87,23 milhões de dólares vistos em 2024.

A segunda razão é que há uma mudança no modelo de financiamento dos programas espaciais africanos. Muitos países estão a canalizar fundos para projectos de capital, como a aquisição de satélites, em vez de aumentar os orçamentos operacionais anuais.

Angola é um bom exemplo: mesmo com um orçamento anual na ordem de cerca de 1 milhão de dólares, o país vai adquirir um satélite de 225 milhões de euros, cujo financiamento será executado em vários anos.

PTI: Ou seja, gasta-se mais, mas de forma diferente?

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T.O: Exactamente. Mesmo que o orçamento seja menor, continua-se a gastar muito dinheiro com programas espaciais. A diferença é que esse orçamento está agora vinculado a projectos de capital, como a aquisição de satélites

PTI: Considerando este quadro, quais são, na sua perspectiva, as principais tendências no ecossistema espacial africano este ano?

T.O: Destaco a criação da Agência Espacial Africana. É uma espécie de versão africana da NASA e foi inaugurada recentemente no Cairo. Além disso, há um aumento do financiamento estrangeiro, como o projecto de 100 milhões de euros, lançado pela Comissão Europeia, destinado ao sector privado, à capacitação e ao desenvolvimento tecnológico. Também se nota um crescimento no investimento em startups africanas.

PTI: Já existe cooperação efectiva entre países africanos no domínio espacial?

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T.O: Sim, a Agência Espacial Africana é um exemplo disso. É uma entidade criada por todos os países africanos, com orçamento assegurado pela Comissão da União Africana. Esta cooperação também facilita parcerias com actores internacionais. Então, sim, os países estão a trabalhar juntos e essa cooperação também permite colaborar com parceiros estrangeiros.

PTI: Durante muitos anos, África dependeu de satélites estrangeiros. Está na hora de mudar?

T.O: Bem, a questão fundamental aqui é que ainda não conseguimos fabricar a tecnologia localmente, em larga escala. É urgente formar jovens, criar empresas locais e desenvolver a tecnologia espacial em África.

Quero dizer, mesmo que Angola seja a proprietária do satélite ANGEO-1, é a Airbus, uma empresa europeia, que o está a fabricar. Portanto, o contrato vai para a Europa. Vai para a Airbus. Se houver uma empresa em África com capacidade para o construir, então o contrato pode ficar cá.

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Se existir uma empresa angolana capaz de o fabricar, o dinheiro permanece aqui. No fundo, trata-se de ter capacidade para desenvolver a tecnologia. Veja-se o exemplo da África do Sul: a maioria dos satélites que lançou foi construída no próprio país, porque já existem empresas com essa competência.

PTI: É curioso que, em vários países africanos, existem muitos dos recursos naturais necessários para isso.

T.O: Sim, penso que sim. Basta investir na capacidade, basicamente.

PTI: E como estamos neste ponto específico, em termos de recursos humanos aptos para sustentar o ecossistema espacial africano?

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T.O: Estamos a fazer algum trabalho, mas não é suficiente. Precisamos fazer mais. Se olharmos para o Egipto, por exemplo, o país já dispõe de uma instalação onde é possível construir satélites, mas isso exige muito investimento.

Exige muita mão-de-obra especializada. E é disso que África precisa. Precisamos que os governos invistam mais na construção de laboratórios, no financiamento às universidades e aos estudantes, e assim conseguiremos alcançar esse objectivo.

PTI: Portanto, podemos resolver este problema em quanto tempo, aproximadamente, se decidirmos investir na formação de quadros?

T.O: Bem, depende. Suponhamos que, em Angola, o governo decida construir satélites no país. Se o objectivo for fabricar satélites de pequena dimensão (entre 10x10x10 centímetros e peso de cerca de 1,33 kg), isso pode ser conseguido em cerca de 15 meses, mais ou menos. É perfeitamente possível.

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Se o governo pôr o investimento necessário em cima da mesa e disser “queremos construir um satélite de média dimensão (entre 3 e 10 metros de comprimento e massa entre 100 e 500 kg), em Angola até 2026”, isso é viável.

Agora, se estivermos a falar de um satélite muito maior, como o Angosat-2, então talvez sejam necessários cinco a dez anos de investimento. É preciso investir fortemente, porque as competências técnicas necessárias para construir este tipo de satélite ainda nem sequer existem em África. Ninguém, neste momento, consegue fabricar algo desta dimensão. Nem mesmo a África do Sul.

Quero dizer, a África do Sul também está a considerar adquirir um satélite de comunicações de grande dimensão, algo semelhante ao Angosat-2. E, actualmente, não tem capacidade para o fabricar internamente. Mas, poderão tê-la se decidirem investir nisso nos próximos anos. Agora, se vão optar por esse caminho ou simplesmente comprar os satélites, ninguém sabe.

PTI: Então, África está a investir em programas espaciais e quer reduzir a sua dependência nessa matéria. Que outros desafios urgentes persistem no continente?

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T.O: Eu acho que o maior desafio actualmente assenta no facto de que ainda não sabemos como construir essa tecnologia em África. Temos de superar isso, pois se resolvermos esse problema, resolvemos quase tudo o resto.

PTI: Então é uma questão de soberania, certo?

T.O: Não se pode falar de soberania se não formos capazes de construir a nossa própria tecnologia.

Imagine que a Airbus constrói o satélite ANGEO-1 para Angola e, amanhã, a Europa entra em algum conflito com Angola, a empresa pode simplesmente desligar ou cortar o acesso ao ANGEO-1. O Angosat -2 foi construído pelos russos. Se, amanhã, a Rússia tiver problemas com Angola, também pode cortar o acesso.

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Ou ainda, se a Europa tiver um desentendimento com Angola, o bloco pode simplesmente recusar-se a fabricar mais tecnologia para o país. E o que é que Angola poderá fazer nessa situação? Nada. É por isso que precisamos ser capazes de desenvolver a nossa própria tecnologia, para garantir a nossa soberania como países e como continente.

PTI: Para terminarmos, vou lhe pedir para descrever o estado actual do ecossistema espacial africano em três palavras-chave.

T.O: Crescente, empolgante e futurista. Adiciono as expressões juventude e investimento. Porque, como disse, precisamos de jovens a entrar no sector e de governos que financiem essa transformação tecnológica.

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