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Namibe: sistema autónomo de semáforos criado localmente apresenta resultados práticos e já prevê expansão

Namibe: sistema autónomo de semáforos criado localmente apresenta resultados práticos e já prevê expansão
Um sistema tecnológico de regulação do tráfego rodoviário denominado “Robô Pinhanha”, desenvolvido por uma equipa liderada pelo investigador da Faculdade de Engenharia e Tecnologias da Universidade do Namibe, Marcolino Kanganjo, encontra-se em funcionamento efectivo nos municípios da Caála (Huambo) e Moçâmedes (Namibe), e apresenta indicadores preliminares de melhoria da circulação automóvel e reforço da segurança de peões.
 
Em entrevista ao Portal de T.I, Marcolino Kanganjo apresentou o quadro actual do projecto iniciado em 2011, na província do Huambo, o qual já conquistou o 1.º lugar na Feira do Inventor Criador Angolano, em 2016, e recebeu em 2025 a medalha de bronze e certificado de mérito na Feira Internacional de Ideias, Invenções e Novos Produtos, em Nuremberg, Alemanha.
 
Portal de T.I (PTI): Do ponto de vista técnico, em que aspectos o Robô Pinhanha apresenta vantagens operacionais face aos semáforos tradicionais e à regulação manual feita por agentes de trânsito?
 
Marcolino Kanganjo (MK): O Robô Pinhanha nasceu da ideia de modernizar as peanhas, instrumentos metálicos utilizados para elevar a posição do agente policial durante a regulação manual do trânsito.
 
Embora eficazes para dar visibilidade aos agentes, as peanhas não eram suficientes para garantir segurança e fluidez do trânsito, sobretudo em intersecções com tráfego intenso, novas localidades em crescimento ou zonas de maior movimento, agravadas pela falta de semáforos tradicionais.
 
Comparativamente aos semáforos tradicionais, que possuem projectores separados para cada sinal e para peões, podendo totalizar 12 a 16 projectores por cruzamento, o Robô Pinhanha concentra todas as funções em oito projectores integrados, simplificando a infra-estrutura e reduzindo consumo energético, sem comprometer visibilidade ou sincronização dos sinais.
 
O sistema de projecção luminosa é organizado da seguinte forma: quatro projectores principais tricolores (vermelho, amarelo e verde) para sinalização das vias e quatro projectores de contador regressivo bicolores (vermelho e verde), indicando o tempo restante para paragem ou circulação.
 
O funcionamento é totalmente sincronizado: quando uma via recebe o sinal vermelho, o contador regressivo correspondente também acende vermelho; quando a via muda para verde, o contador regressivo passa a verde.
 
O sistema coordena-se entre vias opostas: verde em frente e verde oposto implica vermelho na via transversal, eliminando conflitos e garantindo circulação organizada. A transição entre estados é progressiva, com a luz amarela de atenção e prudência, precedida por um verde intermitente na faixa prestes a receber vermelho.
 
Este ciclo contínuo (loop) prepara os condutores para a mudança de sinal, reduz travagens bruscas e aumenta a segurança rodoviária.
 
Além disso, o Robô Pinhanha permite ajuste de altura e ângulos de projecção, adaptando-se a diferentes tipos de intersecções, larguras de via e condições urbanas. A sua modularidade e natureza de projecto reduzido facilitam implementação rápida e escalável.
 
Por fim, o Robô Pinhanha possui também um projecto concluído de semáforos fixos, replicando toda a lógica da versão móvel, incluindo os projectores tricolores, os contadores regressivos bicolores e o ciclo seguro de operação.
 
PTI: A designação auto-sustentável é central na sua invenção. Que soluções energéticas e tecnológicas concretas permitem o funcionamento contínuo do dispositivo em contextos de falhas eléctricas frequentes?
 
MK: O Robô Pinhanha foi concebido para operar totalmente independente da rede eléctrica, respondendo à realidade em que muitas localidades urbanas e suburbanas de Angola enfrentam insuficiência energética e ausência de semáforos tradicionais, agravada pelo crescimento populacional e pelo surgimento de novas zonas de tráfego intenso.
 
O sistema integra painéis solares fotovoltaicos que carregam baterias de alta capacidade durante o dia, garantindo funcionamento contínuo mesmo à noite ou em períodos de falha da rede eléctrica.
 
Além disso, os componentes foram seleccionados para baixo consumo energético, e controladores inteligentes optimizam a utilização da energia, assegurando operação confiável em áreas onde os semáforos tradicionais são inexistentes ou inoperacionais.
 
Dessa forma, a auto-sustentabilidade permite que o dispositivo actue de forma confiável em novos cruzamentos ou localidades em expansão, respondendo às demandas de mobilidade urbana e segurança rodoviária.
 
PTI: Após a implementação nos municípios da Caála e de Moçâmedes, que indicadores objectivos já permitem avaliar o impacto da solução na redução de acidentes, melhoria da fluidez do tráfego ou reforço da segurança de peões?
 
MK: Nos municípios da Caála e de Moçâmedes, os indicadores preliminares mostram: 
 
  • Redução de conflitos entre veículos e peões, especialmente em áreas próximas de escolas, hospitais e mercados.
  • Melhoria na fluidez do tráfego, com circulação mais organizada e menor tempo de espera nas intersecções.
  • Maior cumprimento de prioridades de passagem e disciplina entre condutores.
  • Feedback positivo de autoridades e comunidade local, reforçando a percepção de segurança.

Embora os estudos quantitativos ainda estejam em consolidação, os dados iniciais indicam contribuição clara para a redução de acidentes e aumento da segurança rodoviária.

 
PTI:  Um dos desafios das criações e inovações tecnológicas em Angola é a sua produção e manutenção em larga escala. Que modelo de fabrico, custos operacionais e requisitos de manutenção foram projectados para garantir viabilidade nacional?
 
MK: O Robô Pinhanha foi projectado com foco na realidade nacional, prevendo produção local com utilização de materiais e componentes disponíveis no mercado angolano ou regional.
 
Conta também com uma estrutura modular que permite manutenção simples e substituição rápida de componentes, sem necessidade de técnicos altamente especializados, resultando em baixos custos operacionais, principalmente devido à autonomia energética, que elimina dependência da rede eléctrica.
 
O projecto prevê ainda a possibilidade de parcerias com instituições técnicas e industriais locais, promovendo transferência de conhecimento, capacitação e sustentabilidade a longo prazo. Este modelo garante viabilidade económica e operacional para expansão nacional e aplicação em múltiplos cruzamentos e localidades.
 
PTI: Sendo uma solução desenvolvida em ambiente académico, que obstáculos encontrou na articulação com entidades públicas e decisores para transformar a inovação num instrumento estruturante de política de mobilidade urbana?
 
MK: Os principais desafios foram a validação institucional no que respeita à demonstração de confiabilidade e eficiência do Robô Pinhanha para aprovação pelas autoridades; o financiamento inicial limitado, o que exigiu projectos-piloto para comprovar resultados em diferentes localidades; e a coordenação entre diversas entidades públicas, muitas vezes com processos burocráticos complexos.
 
Apesar destes obstáculos, o reconhecimento nacional e internacional (Feira do Inventor Criador Angolano 2016 e medalha na Feira Internacional da Alemanha 2025) reforçou a credibilidade do projecto e facilitou o diálogo com decisores para implementação.
 
PTI: Que evolução prevê para o Robô Pinhanha nos próximos anos em termos de funcionalidades, integração com sistemas inteligentes de gestão de tráfego e eventual expansão para outras províncias ou mercados africanos?
 
MK: O futuro do Robô Pinhanha prevê a incorporação de sensores inteligentes e monitorização em tempo real do fluxo de veículos e pedestres, a integração com plataformas de gestão urbana, para permitir a coordenação centralizada e decisões automáticas sobre sinais de trânsito.
 
Prevê igualmente a expansão nacional, replicando o sistema em outras províncias carentes de semáforos tradicionais e em novas localidades com crescimento populacional. Há ainda a componente da adaptação para mercados africanos com desafios semelhantes em mobilidade urbana e fornecimento energético instável.
 
O projecto inclui ainda a aposta na evolução da versão móvel e dos semáforos fixos ao manter a lógica de projectores tricolores, contadores regressivos bicolores e ciclo seguro de operação.
 
Com esta iniciativa, o investigador Marcolino Kanganjo e a sua equipa reforçam o papel das academias enquanto espaço de inovação, investigação aplicada e desenvolvimento de soluções tecnológicas ajustadas à realidade nacional e que contribuam para o progresso social e económico de Angola.

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