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O director de Saúde Digital da New Cognito, Ivan António, participou no Africa HealthTech Summit 2026, em Kigali, Ruanda, na qualidade de Embaixador, onde integrou debates sobre o futuro da transformação digital da saúde em África. Ao longo do evento, defendeu a necessidade de os países africanos passarem de projectos-piloto para sistemas de saúde digitais integrados, sustentáveis e orientados para resultados.
Em entrevista ao Portal de T.I, os responsável aborda os principais temas discutidos na cimeira, as tendências que estão a ganhar espaço no continente e as oportunidades que estas mudanças representam para Angola.
Portal de T.I (PTI): Estando no Africa HealthTech Summit, quais são os principais temas e desafios que estão a dominar as discussões sobre transformação digital da saúde em África?
Ivan António (IA): o que me parece mais evidente aqui em Kigali é que a discussão já não é apenas sobre digitalizar a saúde, mas sobre como construir sistemas de saúde inteligentes, conectados e sustentáveis.
O próprio tema do Summit, “Wellness for All: Powered by Intelligent Health Systems”, mostra essa evolução: passar de um modelo muito focado no tratamento da doença para um modelo mais preventivo, baseado em dados, inteligência artificial e cuidados mais personalizados e próximos do cidadão.
Há quatro grandes temas que aparecem transversalmente.
Primeiro, dados e interoperabilidade. Existe uma preocupação muito grande em fazer com que os diferentes sistemas consigam comunicar entre si. Um dos workshops aborda precisamente a construção de um African Continental Health Data Governance Framework, incluindo privacidade, propriedade dos dados, partilha transfronteiriça e utilização segura de inteligência artificial.
Segundo, inteligência artificial responsável. A discussão já não é apenas “podemos utilizar IA?”, mas como avaliar, regular e implementar IA de forma segura e adequada aos contextos africanos. Um exemplo é a sessão sobre AI Evaluation Frameworks in Health, que apresenta experiências concretas nesta área.
Terceiro, passar dos pilotos para a escala. Este é um dos temas mais importantes do Summit. Há uma sessão chamada “From Pilot to Policy” e outra dedicada a “Beyond Pilots: Building Nationally Owned Data, Digital Health and AI Systems in Africa”.
E, finalmente, financiamento e sustentabilidade. Não basta implementar uma plataforma. É necessário garantir quem financia a operação, quem mantém a infraestrutura, quem forma os profissionais e como se assegura a continuidade das soluções.
PTI: A partir das intervenções e contactos que já teve no Summit, que soluções ou tendências de Digital Health lhe parecem estar a ganhar maior relevância nos diferentes mercados africanos?
IA: Eu destacaria cinco tendências: a primeira é a inteligência artificial aplicada à decisão clínica e à prevenção. Estamos a passar de sistemas que simplesmente armazenam informação para sistemas capazes de utilizar os dados para identificar riscos, antecipar situações e apoiar os profissionais de saúde.
Um exemplo concreto da agenda é a sessão sobre “Harnessing Health Intelligence to Reverse Preventable Maternal Deaths”, que aborda a utilização de dados conectados, IA e alertas em tempo real para identificar riscos maternos de forma mais precoce.
A segunda é a interoperabilidade. Cada vez mais se percebe que não podemos ter um sistema para o hospital, outro para o laboratório, outro para a telemedicina e outro para a saúde pública sem capacidade de comunicação entre eles.
A sessão sobre “Making Health Data Exchange Work: Africa–Europe Cooperation on Standards and Interoperability” demonstra precisamente essa prioridade.
A terceira é a Digital Public Infrastructure. Rwanda apresenta uma experiência interessante através do Irembo, mostrando como os serviços digitais podem chegar ao cidadão através de diferentes canais, incluindo aplicações, USSD, call centers e agentes, e não apenas através de smartphones.
A quarta é a digitalização dos cuidados de saúde primários. Existe uma preocupação crescente em levar ferramentas digitais para o primeiro ponto de contacto com o cidadão e apoiar os community health workers. A agenda apresenta, por exemplo, experiências como o HEP Assist, na Etiópia.
E a quinta é digital health financing. Há experiências apresentadas sobre pagamentos digitais na saúde e utilização de mobile money para apoiar profissionais e mecanismos de financiamento comunitário.
Portanto, vemos uma evolução clara: IA, interoperabilidade, cuidados primários digitais, infraestrutura digital pública e novos modelos de financiamento estão a ganhar cada vez mais relevância.
PTI: O que pode Angola aprender com as experiências e iniciativas que estão a ser apresentadas em Kigali?
IA: A principal aprendizagem, para mim, é que Angola não deve olhar para a transformação digital apenas como aquisição de tecnologia, mas como construção de uma infra-estrutura nacional de saúde digital.
Há três aprendizagens muito concretas: primeiro: construir sobre os sistemas existentes e garantir interoperabilidade. Não devemos criar ilhas digitais. Se temos um Hospital Management System, Electronic Health Records, LIS, RIS/PACS, telemedicina ou sistemas de saúde pública, o objectivo deve ser fazê-los comunicar através de padrões e de uma arquitetura comum.
Isso está muito alinhado com a discussão do Summit sobre Digital Public Infrastructure, Interoperability and Open Standards.
Segundo: pensar desde o início em soberania e governação dos dados: esta é uma questão particularmente importante para Angola. A transformação digital também é uma questão de governação, confiança e soberania digital.
Quem é o proprietário dos dados? Onde estão armazenados? Quem pode aceder? Como são utilizados para investigação ou inteligência artificial? Como podem ser partilhados entre instituições e, quando necessário, entre países?
A discussão sobre um quadro continental de governação de dados de saúde demonstra que esta é uma questão que está a ganhar dimensão continental.
Terceiro: evitar o ciclo de pilotos que não chegam à escala: há uma mensagem muito forte aqui em Kigali: África tem muita inovação, mas precisamos de transformar aquilo que funciona em capacidade institucional sustentável.
Para Angola, isso significa desenhar os projectos desde o início pensando em escala nacional, capacitação local, financiamento recorrente, manutenção, interoperabilidade e ownership institucional.
PTI: A sua participação como Speaker e Embaixador de Angola coloca-o também em contacto com decisores, instituições de saúde e empresas de tecnologia de vários países. Que oportunidades concretas de colaboração ou parceria já identifica a partir desses contactos?
IA: Eu vejo oportunidades principalmente em quatro áreas.
A primeira é interoperabilidade e integração de sistemas de saúde. Existe claramente uma procura por plataformas capazes de conectar hospitais, cuidados primários, laboratórios, telemedicina, diagnóstico e sistemas de saúde pública.
É uma área onde Angola também pode contribuir, porque já existem experiências concretas de implementação de sistemas hospitalares, telemedicina e integração que podem ser adaptadas a outros mercados africanos.
A segunda é inteligência artificial e Clinical Decision Support. Existe espaço para parcerias que permitam levar IA para áreas muito concretas, como diagnóstico, triagem, gestão de doenças crónicas, saúde materno-infantil e apoio aos profissionais.
A terceira é telemedicina e acesso aos cuidados de saúde em zonas remotas. A agenda apresenta, inclusive, experiências de utilização de telemedicina suportada por satélite para alcançar comunidades com menor cobertura.
E a quarta é parcerias público-privadas e financiamento da transformação digital.
Uma das discussões do Summit aborda precisamente como transformar soluções comprovadas em modelos financiáveis e escaláveis, combinando financiamento público, investimento privado, development finance e parcerias estratégicas.
Para mim, portanto, o valor de estar aqui não é apenas apresentar o que Angola está a fazer. É também posicionar Angola como um mercado de inovação, implementação e parceria para soluções africanas.
PTI: Depois das discussões que estão a acontecer no Summit, qual é, na sua perspectiva, o passo mais importante que os países africanos precisam de dar para transformar a tecnologia em melhorias concretas no acesso e na qualidade dos cuidados de saúde?
IA: Eu diria que o passo mais importante é passar da lógica de projectos para a lógica de sistemas.
Nós já temos tecnologia. Temos startups, inteligência artificial, telemedicina, Electronic Health Records, pagamentos digitais, diagnósticos conectados e plataformas de dados.
O desafio agora é transformar essas soluções em infra-estruturas permanentes dos sistemas nacionais de saúde.
A própria agenda do Summit mostra essa evolução. Fala-se de “From Pilot to Policy”, “Beyond Pilots”, financiamento sustentável, governação de dados, interoperabilidade e national ownership.
E eu acrescentaria uma segunda dimensão: a tecnologia tem de começar pelo desafio de saúde que pretendemos resolver, e não pela tecnologia em si.
Por exemplo, se o desafio é reduzir a mortalidade materna, precisamos de utilizar dados e inteligência para identificar precocemente situações de risco e garantir que essa informação chega aos profissionais de saúde e aos diferentes níveis de atendimento.
Se o desafio é melhorar o acesso aos cuidados de saúde, precisamos de combinar cuidados primários, telemedicina, canais digitais e profissionais comunitários.
Se o desafio é garantir a continuidade do tratamento, precisamos de interoperabilidade e de um registo clínico que acompanhe o cidadão ao longo de todo o seu percurso de cuidados.
É aí que, na minha opinião, a transformação digital deixa de ser simplesmente uma transformação tecnológica e passa a ser transformação do sistema de saúde.
E talvez essa seja a principal mensagem que levo de Kigali: África não precisa apenas de mais tecnologia na saúde. Precisa de tecnologia integrada nos seus sistemas, com governação africana, financiamento sustentável e foco claro nos resultados para o cidadão.


